Nosso Estranho Amor

41. O bom filho a casa torna

Meu pai me levou até a casa que morei por mais de vinte anos da minha existência. Meus sentimentos não estavam tão bagunçados quanto antes, parece que a conversa com a minha mãe havia me ajudado bastante, estava completamente feliz por estar novamente perto dos meus pais, e torcendo para que minha mãe saísse o mais rápido possível dessa situação. Durante o trajeto conversei com o meu pai como nos velhos tempos…

Já no meu quarto percebi que tudo estava do mesmo jeito que deixei antes de sair, bastante organizado e limpo, mesmo longe por anos, meus pais nunca deixaram de zelar pelo meu quarto rosa choque, no fim é como se eles soubessem que mais cedo ou mais tarde a filha caçula estaria de volta.

Tomei um banho, e só na hora de provar a lasanha da Joana, um prato que eu amava desde garotinha, percebi o quanto estava faminta. Já ia dormir, mas antes resolvi telefonar para a Ágatha. Não me surpreendi quando vi que o seu celular estava desligado, com certeza ela estava se divertindo a beça em Buenos Aires e nem se lembrava da minha existência. Os pensamentos conflitantes me fizeram chorar até que simplesmente adormeci.

Acordei com algumas batidas na porta. Mesmo bastante sonolenta autorizei a entrada da pessoa.

–Desculpa… Não sabia que você estava dormindo. Posso voltar outra hora. –disse uma voz bem conhecida para mim.

–Deixa de bobagem! Pode entrar. –disse me sentando na cama e feliz com aquela visita inesperada.

–Não sei se você está com fome, mas trouxe algumas coxinhas. Lembro que você gostava. –disse sentando ao meu lado.

–E lembrou certo… –deixei um sorriso tímido escapar. –A lasanha da Joana me encheu, mas meu estômago sempre tem espaço quando o assunto é coxinhas. –rimos ainda mais.

Comemos silenciosamente, nenhuma de nós duas queria quebrar aquele momento. Só que quando terminei de comer não pude deixar de notar o seu semblante extremamente triste e meio chateado.

–Pietra, o que aconteceu? Não tô gostando nada do seu olhar. Por favor, não me diz que tem algo haver com a minha mãe. –indaguei com medo da resposta.

–Eu conversei diretamente com o médico que está na frente do caso da sua mãe e infelizmente as notícias não são nada animadoras. –disse baixando o olhar e eu já sentia algumas lágrimas quererem jorrar pelo meu rosto.

–Por favor, será que dá pra você parar de dar tantas voltas e ir direto ao ponto?! Não tô aguentando mais de tanta apreensão. –falei sem paciência.

–Parece que já tem mais de quinze anos que sua mãe foi diagnosticada com rins policísticos…

–Engraçado que minha mãe nunca falou isso, eu não fazia a menor ideia. –disse sem esconder minha surpresa.

–Sua mãe não quis preocupar você e o Renan com esse problema, na verdade não sei nem se o seu pai também sabia dessa situação. Com o passar do tempo a condição de saúde evoluiu para insuficiência renal crônica e ela passou a realizar hemodiálise. Só que agora as coisas se complicaram ainda mais, só um transplante de rim pode salvar a vida da sua mãe. –nessa hora não aguentei e explodi em um choro de desespero imediatamente.

–Eu não posso perder minha mãe, eu não posso perder minha mãe… –repetia essa frase sem parar e andava em círculos.

–Ei, calma! Você não vai perder sua mãe, as coisas vão dar certo.

–Não me peça calma em um momento desses, Pietra. Tenho certeza de que se fosse a sua mãe você não estaria tão calma. –respondi nervosamente e depois me dei conta da bobagem que havia falado. –Desculpa, você tá me ajudando e eu tô dando patadas.

–Tá tudo bem, eu entendo. Fica tranquila de que não vou te abandonar nesse momento. Sua família é grande, eu também farei esses exames pra ver se sou compatível… Tenho uma excelente ideia. O que acha de parar de chorar e me ajudar a fazer uma campanha nas redes sociais? Quanto mais gente ajudar é melhor. Seja forte! Agora sua mãe precisará de toda sua ajuda, não das suas lágrimas. –Pietra disse confiante e com essas palavras tive uma certa esperança e até mesmo otimismo de que tudo daria certo.

–Muito obrigada Pietra. Você é um anjo. Não sei o que seria de mim sem a sua ajuda. –disse lhe abraçando de maneira agradecida.

–Farei tudo o que estiver ao meu alcance para te ver feliz. Você merece, Pinguim.

Pietra me pediu segredo sobre o que havia me contado, e é claro que concordei, até porque aquilo poderia implicar em medidas punitivas para o médico que estava a frente do caso da minha mãe no Conselho de Medicina. Não demorou para que a equipe médica desse essa mesma notícia para a minha família, todos ficaram em estado de choque.

Os dias foram passando rapidamente, todos nós fazíamos os exames, mas ninguém era compatível com a minha mãe, o seu estado de saúde piorava ainda mais. Até mesmo pessoas desconhecidas se solidarizaram com a situação da minha mãe e prestavam os devidos exames, mas é como disse… A sorte estava contra nós e cada vez mais o quadro de saúde da minha mãe apenas piorava.

Enquanto Pietra permanecia ao meu lado sempre me apoiando, a Ágatha simplesmente tomou chá de sumiço. Não atendia minhas ligações e nem fazia questão de entrar em contato.

Nesse ínterim os bebês da Dani iam se desenvolvendo, eram lindos. Pedro Paulo e Paulinha chegaram ao mundo com muita saúde, uma notícia boa no meio de tanta desgraça. Eu até seria madrinha da Paulinha, não deixaria a Ágatha comandar minha vida, mas não estava com cabeça para essas coisas, apenas queria salvar a vida da minha mãe. A Pietra acabou por ser madrinha das duas crianças.

Mesmo com os protestos do meu pai, dos meus avós e de outros parentes, não desgrudava daquele hospital por nada, e minha ex-namorada sempre estava por perto para me apoiar.

Era mais uma manhã como tantas outras… Estava sozinha na recepção daquele hospital quando chegou a última pessoa que pensava que veria na minha vida. Ágatha se aproximava toda cheirosa com os cabelos penteados, calça jeans justa, uma blusa de alcinhas, sapatilhas e maquiada elegantemente, aquela calça favorecia e muito aquela bunda. Estava completamente linda, não vou negar. Mesmo tão triste e decepcionada com sua ausência, não posso negar o quanto meu coração disparou naquele momento e nada mais parecia importar

–Oi meu amor! Como você está? Senti muito a sua falta enquanto estive longe, não via a hora de te ver. –falou com a cara mais deslavada desse mundo. Minha noiva iria me dar um selinho, mas simplesmente desviei meu rosto.

–Ágatha, deixa de hipocrisia. Você não atendeu uma ligação sequer, nem deu sinal de vida. Fico feliz por você estar completamente bem e feliz, mas ao contrário de você eu estou destruída. –falei sem um pingo de paciência.

–O que você queria que eu fizesse, Giovanna? Minha família programou essa viagem durante o ano todo, não podia desistir de tudo prestes a embarcar. Seria uma grande desfeita com os meus pais. –disse e não pude me conter.

–Tem razão. Seria uma desfeita e tanta com a sua família. Ágatha, quero que saiba que eu pensei muito bem e tô repensando a ideia do nosso casamento, melhor continuarmos com o nosso namoro. Você não está pronta para um passo importante desses. –respondi querendo tirar um fardo dos meus ombros.

–Você enlouqueceu?! Por que do nada tá querendo voltar atrás e não se casar mais comigo? Foi você mesma que me pediu em casamento. –falou revoltada

.

–Porque casamento é via de mão dupla. Eu faço tudo por você, sou verdadeira, tento te agradar de todas as formas possíveis, até perdi meu emprego por sua causa, e o que você faz por mim, Ágatha? Absolutamente nada. Minha mãe adoeceu e precisava do seu colo, do seu apoio, nem que fosse de longe, mas nem uma palavra de consolo você foi capaz de me dar. Não quero me casar com alguém egoísta. –disse sentindo o peso de algumas lágrimas. O silêncio da Ágatha me deu ainda mais certeza de que casamento não seria uma decisão acertada. Só que depois de um certo tempo a ruiva resolveu falar.

–Tem certeza de que você é verdadeira, Giovanna? As vezes não é o que parece. Pensa bem se você tá sendo sincera comigo e com você. –confesso que essa fala me surpreendeu.

–Do que é que você tá falando?! –perguntei sem entender. –Não tem o menor cabimento o que você disse.

–Será que não tem cabimento? Talvez não esteja errada. –disse me encarando profundamente e não fui capaz de sustentar esse olhar.

–Se você for ficar para arrumar briga e confusão é melhor ir embora. –disse fracamente.

–Tá me expulsando? Quer mesmo que eu vá? –perguntou me fazendo suspirar.

–Faça como quiser, apenas não quero brigar. Só tô precisando de paz. –nessa altura já não sabia se queria que a Ágatha ficasse ou fosse embora.

–Sou sua noiva, vou ficar e cuidar de você. Desculpa se esses dias fiquei ausente, mas eu realmente precisava ficar longe de você, Giovanna… E para o meu próprio bem. –disse me abraçando fortemente e não recusei o contato, era apaixonada por esse abraço, mas a fala da Ágatha me deixou confusa.

–Por que você precisava ficar longe de mim? O que foi que te fiz? –indaguei desacreditada.

–Esquece! O importante é sua mãe ficar bem logo. –disse voltando a acariciar os meus cabelos e me recostei no colo de Ágatha. Apesar de tudo essa ruiva me fazia um bem danado. Estava onde precisava estar, no colo de alguém que mesmo com todos os defeitos do mundo queria perto de mim, a única que me fazia cometer loucuras que não faria no meu estado normal.

Por alguns minutos cochilei até que fui surpreendida pela voz do meu pai e da Pietra se aproximando.

–Oi minha criança! Senti falta da minha caçulinha. –meu pai chegou apertando minhas bochechas como se fosse uma criança, me matando de vergonha. –Quem é essa mulher linda ao seu lado, parece uma modelo, não vai me apresentar?

–Pai, essa é a Ágatha… Minha namorada. –respondi evitando olhar para a Pietra. –Ágatha, esse é o meu pai Marcos.

–A Gi é muito esquecidinha, nós já passamos do estágio de namoro. Agora nós somos noivas. –fiquei irritadíssima com o que a Ágatha falou, parece que se fez de surda… –É um imenso prazer lhe conhecer Sr. Marcos.

–Por favor sem o Senhor, só me chame de Marcos, não sou tão velho. Minha pequeninha tá podendo. Uma ex-namorada gata e uma noiva lindíssima, também pudera… Tenho uma filha linda. –queria ter um buraco para me enterrar.

–Por favor, pai. Não me deixe envergonhada. –respondi timidamente.

–Vocês são namoradas ou noivas? Você que tá falando em noivado, a Gi disse que vocês namoram. –a Pietra estava me ajudando, mas nessa hora tive vontade de lhe esganar.

–E eu posso saber por que você está tão interessada em saber, Pietra? Não tens nada haver com a nossa vida… Aliás, o que você está fazendo neste hospital? Eu que sou a noiva dela, você está sobrando. –Ágatha rebateu explosiva, sabia que ela não deixaria essa alfinetada passar.

–Engraçado que quando a Giovanna mais estava precisando, você não se lembrou de que era noiva dela. Eu vi cada lágrima que ela derramou e onde é mesmo que você estava, advogada? Ah! Lembrei. Você estava se divertindo por aí sem se importar com todo o sofrimento dela.

–Só que agora eu estou aqui e você é que vai embora. Não quero te ver aqui. –minha noiva rebateu furiosa.

–Querida, sinto muito em dizer que você tá perdendo o seu tempo. Vá você embora, não vou sair daqui. –Pietra respondeu extremamente calma. Apenas assistia esse espetáculo de camarote.

–Giovanna, quem você quer que fique? Ou vai embora a Pietra ou eu irei embora. –minha noiva falou e eu simplesmente explodi.

–Se as duas não sabem se comportar como adultas e vão ficar agindo como sem noções, quero que as duas vazem daqui. O mais importante é o bem-estar e a melhora da minha mãe, vocês que se entendam. –respondi sendo apoiada pelo meu pai.

–A minha filha está completamente certa. Nesse momento nós precisamos de muito amor e solidariedade, não de perturbações.

Nessa hora meu pai me abraçou longamente e em seguida o médico responsável pelo caso da minha mãe pediu para falar conosco, só pelo olhar dele sabia que as notícias não eram nada animadoras.

–Sinto muito em informar que o estado de saúde da Sra. Graziele está se complicando cada vez mais, temo que o pior aconteça se não conseguirmos realizar esse transplante o mais rápido possível. –não havia pior notícia para ouvir.

–Doutor, mas na semana passada novas pessoas vieram fazer os testes para doação… –meu pai insistiu.

–Só que infelizmente nenhuma dessas pessoas era compatível. –o médico tratou de esclarecer.

–Transplante? Como assim? Não sabia que o estado de saúde da sua mãe era tão crítico, Gi. –Ágatha respondeu surpresa, me abraçando, e não neguei esse gesto afetuoso, estava precisando.

–Isso mesmo que você ouviu. A mãe da Giovanna precisa de um transplante de rim, mas é claro que você não sabia. Sua viagem de férias era mais importante do que a preocupação com a sua noiva. –Pietra falou com desdém. Sabia que essa era a mais pura verdade, mas também não queria que a DJ se dirigisse de uma forma grosseira à minha noiva, não deixaria ninguém tratar a Ágatha mal.

–Pietra, já basta! Chega de colocar lenha na fogueira. Não é momento pra isso. –falei e a DJ assentiu, não disse mais nada.

Depois dessa notícia bombástica, Pietra ficou conversando com meu pai e outros parentes que chegaram, Ágatha permaneceu me abraçando e tentando me dar forças. Não vou negar que estava adorando permanecer tão próxima à minha noiva mesmo em um momento desses, era como se o mundo lá fora não existisse.

–Garota, você não deveria estar perto da minha irmã. Se afasta dela. Se manda daqui! –fomos separadas pelo meu irmão que não gostou da presença da ruiva.

–Renan, você enlouqueceu? A Ágatha é minha noiva e eu é que decido se ela fica ou não.

–Gigi, será que você não percebe que tudo anda dando errado na sua vida depois que ela cruzou os nossos caminhos? Essa mulher não te merece. –meu irmão falava descontroladamente. –Não quero vê-la perto da minha mãe.

Nessa hora o telefone da Ágatha começou a tocar histericamente e estranhei bastante quando ela se afastou para atender, e parecia bastante triste.

–Amor, preciso ir embora. Depois nos falamos. –Ágatha disse se aproximando de mim.

–Por que você tem que ir? Ágatha, eu preciso de você. Minha mãe não tá nada bem. Será que é pedir muito para que você permaneça comigo só por hoje? –será que minha noiva não se importava com os meus sentimentos, não se importava comigo?

–A Tainá está com dificuldade para fechar um contrato importante no escritório. Seu pai, seu irmão, você está cercada de pessoas que te amam. Eu realmente preciso ir, não posso perder esse contrato por nada desse mundo. –estava totalmente desacreditada no que ouvi.

–Então quer dizer que uma merda de um contrato é mais importante do que eu? Tá bom… Não precisa se explicar Ágatha. Eu já entendi. –falei aumentando o tom da minha voz, mais do que o necessário.

–Não é isso que quero dizer, mas se você faz tanta questão, eu posso ficar…

–Quer saber?! Agora sou eu que quero que você vá embora! Some daqui! –falei e imediatamente a minha noiva foi embora.

Pelo visto tudo estava complicando na minha vida. Agora que estava me acertando com a minha família, parece que o destino ia cobrar um preço altíssimo que incluiria levar a vida da minha mãe antes do tempo e Ágatha se afastava cada vez mais de mim. Instantaneamente comecei a chorar, choro por poder perder a Grazi e por ver a Ágatha se afastar, não ligar para mim.

Nos dias que se seguiram estava cada vez mais distante da Ágatha pois sempre que estávamos juntas nossas conversas terminavam em brigas, era engraçado que a ruiva cobrava a verdade, carinho, amor, atenção, mas não era capaz de oferecer compreensão diante de toda situação delicada que envolvia minha mãe. A advogada tinha um apetite sexual voraz e as coisas sempre saíam de controle quando percebia que eu não tinha a menor vontade de fazer amor, só fazia pensar na minha mãe dia e noite, nem estranharia caso estivesse sendo traída. A Ágatha se mostrou frustrada quando soube que havia voltado a morar na casa da minha família, queria minha atenção só para ela.

Em compensação, a Pietra mostrava um lado completamente novo e cativante para mim. Tentava me fazer rir de todas as formas possíveis e com as piadas mais sem graça. Era um amor de pessoa e a DJ estava me fazendo repensar se a continuação do meu noivado seria uma boa ideia, de uma forma ou de outra estava ganhando espaço no meu coração. O mais importante de tudo é que a morena não me fazia perder a fé e a esperança de que encontraríamos um doador e a minha mãe seria salva. Nosso otimismo e esperança de expandir a busca por doadores a partir das redes sociais ganhava mais força a cada dia, a cada momento.

O que mais me chamava atenção era que o Renan voltou a tentar ser meu melhor amigo quando a Ágatha se afastou, me pedia perdão constantemente, e queria que voltássemos a nos aproximar, mas minha confiança nele estava completamente abalada, acho que nossa relação nunca mais seria como antes.



Notas:



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