A grande fogueira na praça estava armada para a tradicional noite de vinho e dança. Foi ao lado dela que o cortejo parou. O encantamento e atenção que Amani despertava era gritante, muitas pessoas se ajoelhavam diante dela, outras — mais corajosas — pediam bençãos.

Ela atendia a todos com um sorriso singelo e não se incomodou quando foi cercada por meia dúzia de crianças curiosas, que fizeram uma sucessão de perguntas engraçadas e naturalmente absurdas.

— Eu acho que estou apaixonado. Será que ela aceitaria ser cortejada por mim? — Mardus brincou e ganhou uma cotovelada de Lenór.

— Mais respeito! — ela quase rosnou. Ao lado dela, Vanieli riu alto.

— Você acabou de agredir o seu rei? Sabia que posso pedir a sua cabeça por isso?

— Sabia que posso arrancar sua língua antes que consiga terminar a próxima frase? Principalmente, se ela envolver Amani?

— E vocês sabiam que essas birras seriam fofas, se vocês fossem crianças? — Vanieli se intrometeu. — Ela é mesmo linda, Lenór. E por mais que seja estranho e difícil compreender essa história, majestade, ela também é a mãe da sua comandante. Então, por favor, seja comedido nos comentários e brincadeiras.

Após alguns instantes de silêncio provocativo, os três riram e aceitaram as taças com vinho que uma moradora trazia numa bandeja. Isso fez Lenór recordar de seu quase envenenamento, na primeira vez que participaram do evento. Mardus, por sua vez, fitou a amiga longamente. Como a esposa dela acabara de falar, era realmente difícil acreditar nessa história, ainda mais, porque pareceu um delírio de uma mente atormentada quando a comandante a contou dias atrás.

Ele só não caiu na gargalhada, porque Virnan e Voltruf estavam presentes na sala e pareciam muito sérias sobre o assunto, complementando alguns pontos. Desde então, esperou a chegada de Amani com tanta ou mais ansiedade que Lenór.

E no instante em que as viu lado a lado, seu coração se encheu de alegria, pois, a amiga parecia feliz como ele nunca tinha visto. Trocou poucas palavras com a senhora de Aman, mas ela parecia ser tão especial quanto as histórias que ouviu durante toda a vida.

— Só para de fazer piada idiota e se preocupa com quem vai te aquecer esta noite — disse Lenór para ele.

— O príncipe Ricksen? — Vanieli arriscou-se. Havia notado a intimidade entre os dois homens, que parecia crescer a cada dia. Quando estavam distantes dos lordes e generais, Mardus sempre dirigia um olhar carinhoso para o primo. Este, por sua vez, retribuía de maneira comedida; às vezes, por meio de um sorriso discreto.

O rei fez um ar misterioso. Nos últimos dias, seu convívio com as duas tornou sua relação menos formal e, atenta a liberdade que ganhava, Vanieli já ignorava o fato dele ser o soberano de Cardasin e lhe falava abertamente, assim como a sua esposa.

— Na verdade, Dalise — Lenór esclareceu.

— O quê? Como assim?

— Não sei do que está falando, prima — Mardus tentou se esquivar e Lenór deu uma risada alta, sorvendo um gole de vinho em seguida.

— Não sei quem vocês pensam que estão enganando…

— Com certeza, a mim! — Vanieli a interrompeu, rindo e bebendo de sua própria taça.

— Está na cara que estão dormindo juntos — Lenór concluiu. — E já até imagino como tudo começou.

— E como foi, espertinha? — o rei desafiou, divertido com o rumo da conversa.

— Você adora um desafio, Mardus. Aposto que infernizou Dalise todos os dias com esse charme vagabundo. E tenho certeza que ela o rejeitou com a mesma vontade — balançou os ombros, como se o que disse não tivesse importância real.

— Se é assim, como acabamos juntos, na sua teoria? — ele também provou o vinho, os olhos retornando para o semblante risonho da senhora de Aman, que naquele momento caminhava em sua direção. As duas protetoras daijins logo atrás.

Nas minhas certezas, sei que semanas de cativeiro e uma fuga entre reinos, aproximam as pessoas. Além disso, você tem um tipo. E Dalise se encaixa nele com perfeição.

Mardus soprou o ar com força, pois ela acertou precisamente nas suposições. Dalise e ele pareciam ser como água e óleo, estavam sempre batendo de frente, mesmo que fosse o rei e ela a subordinada. O fato dela ser baraforniana e militar, com certeza, a tornava ainda mais instigante. No entanto, era sua sensibilidade e inteligência que o atraíam, fazendo com que procurasse maneiras de provocá-la, apenas para ter sua total atenção. Ela o fazia suspirar, como não acontecia há muito tempo.

— Estou errada? — Lenór estreitou o olhar com uma ruguinha soberba no canto da boca.

Ele não respondeu. Em vez disso, mostrou um sorriso provocador e tirou Vanieli para dançar. Lenór não se importou com o silêncio, bastava saber que o amigo estava feliz e que Dalise também parecia estar. Assim como Dimal, ela era muito reservada sobre seus sentimentos, contudo, mais alegre e expansiva. Quando os reencontrou em Andalus, após anos sem se verem, sentiu que a luz que a amiga emanava parecia ter apagado após ficar viúva.

Infelizmente, Lenór compreendia bem essa dor. Perder Najili foi horrível, doloroso e assustador. Foi como se a sua própria vida se esvaísse.

Olhou para Vanieli, tão alegre, saltitando em movimentos graciosos sob a condução de Mardus, e teve certeza de que a perder seria mil vezes pior. Ainda amava e sempre amaria Najili, mas o sentimento que compartilhava com Vanieli era infinitamente maior e, como Amani contou, atravessou muitas vidas.

— Você parece tão feliz quando olha para ela — Amani falou, parando ao seu lado. — É a primeira vez que as vejo juntas. Antes, somente nas lembranças de suas vidas passadas.

— E como está sendo? — trouxe o olhar para seu rosto delicado, onde um sorrisinho discreto separava os lábios rosados.

Amani segurou a mão dela, seus dedos entrelaçados.

— Lindo. Somente assim posso descrever a alegria de testemunhar a sua felicidade. E é assim que também me sinto: feliz!

Lenór encaixou-se no abraço dela, rindo e deleitando-se com o contato. Aquilo parecia tão certo e tão puro. Por um instante, capturou os olhares curiosos de alguns lordes, que se reuniam ali perto.

No momento da sua chegada, eles tentaram esbanjar respeito e simpatia para a deusa, mas ela limitou-se a um cumprimento singelo enquanto os olhos astutos inspecionavam seus rostos e decorava nomes. Não passou despercebido a ninguém, que ela se demorou mais ao encarar Lorde Kanor, causando algum desconforto no nobre, cuja postura rígida fraquejou levemente.

A aparência dela impressionava, devido à beleza e os traços físicos característicos da sua raça, mas foi quando falou, que causou o maior impacto nos nobres e demais pessoas diante dos portões da cidadela. Amani agradeceu as boas-vindas e, principalmente, expressou a alegria em reencontrar a sua filha.

Alguns ensaiaram um pedido de explicações, porém, Mardus retaliou qualquer intento quando a convidou a entrar na cidadela. E durante as poucas centenas de metros de caminhada até a praça central, o rei continuou falando e se desculpando por não oferecer uma recepção digna de uma visitante tão ilustre. Ao que Amani respondeu que era uma mulher simples e não se importava com recepções suntuosas. Além disso, seu único objetivo ali era estar com Lenór.

— Bom, você sozinha já chama muita atenção, mas nós duas… — a mais jovem riu, afastando-se. — Toda essa gente está tentando entender nossa relação. Isso me diverte.

— Tenho certeza que mesmo explicando, ainda não entenderiam — deslizou uma mão pelos cabelos da jovem.

— Concordo — Lenór segurou a mão dela e a levou até os lábios. — Você quer dançar?

— Tenho dois pés esquerdos — Amani falou seriamente e negou-se com um aceno.

— Duvido muito — riu Lenór, escorregando a mão pelo braço dela, num carinho singelo.

***

Do outro lado da praça, Lorde Kanor estreitou os olhos para a cena.

— Você nem esconde.

Ele olhou para o lado e assustou-se ao encontrar Virnan.

— Do que fala? — rosnou a pergunta.

Com um gesto de cabeça, ela indicou Lenór e Amani.

— O ódio pela sua filha — esclareceu. — Mesmo após tantos anos e dela demonstrar o seu valor de inúmeras maneiras, você só consegue verter ódio por ela.

— O que sinto ou deixo de sentir não é da sua conta, estrangeira — cuspiu as palavras e tomou um gole de vinho. Lorde Taniel se aproximou, ouvindo parte da conversa. Parou ao lado do lorde mais velho, bebericando seu vinho com cara de paisagem.

Virnan mostrou seu melhor sorriso irônico, aquele que causava tanta confusão quanto arrastava medo em seus inimigos.

— Há doze anos, quando nos encontramos naquela estrada e vi o que você fazia com a sua filha, eu quis desistir dos votos pacíficos que fiz para a Ordem. — Baixou o olhar para as mãos, como se inspecionasse uma sujeirinha nas unhas. — Ah, como desejei arrancar sua pele bem devagarinho ou pressionar os pontos mais dolorosos do seu corpo rechonchudo… Cheguei a sonhar com os seus gritos de agonia.

Lorde Taniel engoliu em seco, imaginando as cenas que descreveu e recordou a dor que as mãos de Lenór causaram ao seu corpo com um simples golpe aplicado no ponto certo. Ele olhou para Kanor e percebeu seu desconforto, embora o lorde estivesse tentando se mostrar valente diante daquela mulher, que era pequena em tamanho, mas gigante em ações.

Virnan baixou as mãos e as uniu nas costas, mostrando, agora, um sorriso quase travesso, que a fez parecer ainda mais jovem do que sua aparência denunciava, embora tivesse mais três milênios de idade.

— Porém, me contentei em ajudar Lenór a fugir das suas garras. E veja que mulher maravilhosa ela se tornou! Tenho tanto orgulho dela, que nem consigo expressar isso direito.

— Você pretende chegar a algum lugar com isso? — o lorde mais velho soprou a pergunta, como se estivesse prendendo o ar há algum tempo.

Ela riu, um risinho baixo e provocativo.

— Ah, você é meio lento, não é? Então, vou ser mais clara. Como rainha de Flyn, eu não me envolvo na política de outros reinos. Como uma guardiã da Ordem, eu não me meto nas guerras alheias, exceto, como mediadora e curandeira. Você não significa nada para mim, Lorde Kanor. Mas, como amiga e mestra de Lenór, estou disposta a esquecer minha coroa e os meus juramentos pacíficos, para protegê-la de um progenitor desalmado.

— Então, está me ameaçando.

— Ah, não, Lorde Kanor! Eu não faço ameaças, faço promessas. No entanto, esta conversa não é nem um, nem outro.

Ela voltou a olhar para Lenór e Amani.

— É um aviso — contou. — Você já sabe o que sou capaz e estou disposta a fazer por Lenór, mas não tem ideia do que Amani é capaz de fazer pela mulher, cujo corpo abriga a alma da filha dela. Sugiro que pare de andar por aí, como um animal peçonhento a espreita de uma caça, vertendo todo esse ódio por Lenór. Você não tem magia, mas a negatividade dos seus sentimentos irradia em ondas desagradáveis e magos são sensíveis a essas energias, principalmente, Amani, cuja sensibilidade mágica está em um nível ímpar.

Ela riu de lado.

— A Rainha da Morte pode despedaçar almas com apenas um olhar. E algo me diz que ela apreciaria muito transformar a sua em poeira — deu uma risada malvada, junto com uma tapinha “camarada” no ombro do lorde. Então, se foi, juntando-se à Voltruf e Lyla, que a aguardavam poucos metros atrás.

— Você é muito malvada, irmã — Lyla cantou, observando Lorde Kanor se dirigir para fora da praça com passos duros e ligeiros. Lorde Taniel, por sua vez, tomou todo o vinho do cálice que segurava antes de também deixar o local. — Adoro isso.

Em resposta, Virnan deu uma gargalhada alta.

— Você devia ter ficado calada. Adoraria ver Amani acabar com ele — Voltruf reclamou.

— Você a conhece o suficiente para saber que ela pode fazer isso a qualquer momento e nem precisa estar por perto para realizar esse feito. Não fique chateada, Volt. Só estou me divertindo ao plantar o terror na mente de um homem horrível.

Voltruf riu, balançando a cabeça, então corou quando sentiu a mão dela descansar em seu ombro. Virnan a olhou com carinho e se afastou. Volt nunca se acostumaria com isso, tê-la por perto, conversar e rir com ela tranquilamente, em vez de esconder seus sentimentos atrás de palavras ácidas e malvadas, além de agressões físicas.

Às vezes, achava que o universo gostava de rir da sua cara. Era isso ou aceitar que o seu destino sempre foi percorrer aquela espiral de sentimentos intensos por Virnan. A odiar e amar em vida, depois na morte, então se tornar o espírito guardião da esposa dela e agora… se apaixonar pela irmã de círculo dela.

Sentiu o rosto arder mais intensamente ao pensar em Melina, um calorzinho bom espalhando-se pelo peito. Sem perceber, dirigiu o olhar em direção ao castelo, onde a amante repousava, ainda se recuperando dos ferimentos que sofreu na batalha.

Agora que Marie sabia sobre elas, talvez fosse o momento de conversarem seriamente sobre o seu relacionamento. Talvez, dar um nome para o que tinham.

— C-com li-licença.

Volt reconheceu a jovem soldado diante delas. A princípio, pensou que Adalie Baruk estava bêbada, mas logo percebeu que era apenas nervosismo. A moça, de pele morena e cabelos negros presos em uma trança bifurcada, encarou Lyla e perguntou:

— Des-desculpe o atrevimento, senhora. M-mas, você quer d-dançar?

Estava na cara o quanto de coragem que a garota teve de reunir para fazer esse convite. Afinal, estavam em Cardasin. E apesar das mudanças que Mardus promoveu, casais do mesmo sexo dançando em público, não eram vistos. A exceção de Lenór e Vanieli.

Mas, naquela noite, tudo parecia diferente naquele pedaço do reino. A comandante e sua esposa estavam dançando, o engenheiro Draifus e Jeor também. Até mesmo o rei tirou um soldado para dançar. E pela primeira vez, Adalie queria saber como era fazer isso com alguém que realmente a atraía.

Lyla passou tanto tempo encarando a mão dela, que Adalie começou a recolhê-la, envergonhada.

— Ela adoraria — disse a rainha, empurrando a irmã na sua direção.

— Ah, com certeza! — Lyla falou, segurando a mão da moça e depois a seguiu para o meio da multidão que dançava em volta da fogueira.

Virnan sorriu, notando a curiosidade de Voltruf.

— Ela ficou surpresa, acredita? A antiga rainha de Flyn, que nunca foi tímida e sempre escolheu os amantes mais fogosos, ficou sem jeito diante do convite gaguejado de uma menina que não faz a mínima ideia das suas diferenças de idade e experiências.

Balançando a cabeça, continuou a falar:

— Foi a primeira vez em cinco anos, desde que firmamos nosso laço castir, que não ouvi a voz dela tagarelando na minha cabeça.

— Isso é surpreendente — Volt afirmou, conhecedora da tagarelice orgulhosa e provocadora de Lyla.

— Bom, assim como você, agora ela é um espírito. E em Flyn, todos sabem disso. Então, as pessoas mantêm distância, não por medo, mas por respeito. — Ela fez uma pausa, sentindo a satisfação e alegria da irmã invadi-la em ondas suaves. Olhou para Lyla e ela ria alto, tentando aprender os passos da dança que Adalie se esmerava em ensinar. — Ela não fala sobre isso, mas pensa e o nosso laço me faz sentir a melancolia que a toma.

— Acha que ela se arrependeu do voto mágico que fizeram?

— Não, Nária. A satisfação de Lyla é semelhante à minha. Não saberia descrever como sou feliz por ter minha irmã ao meu lado, me completando como minha guardiã espiritual. Mas ela teve amigos e relacionamentos antes de falecer. Mesmo com nossa união, outras relações além do meu círculo de amizades, faz falta não? Afinal, ela não é um espírito da natureza. Você entende bem do que estou falando, pois foi exatamente por isso que não partiu para Inamia e se tornou o spectu de Marie.

O vento fresco soprou suavemente à volta delas, trazendo um pouco da fumaça que se elevava da fogueira.

— Sim, eu entendo — confirmou o espírito, rememorando os anos que passou em companhia de Melina, viajando por aquele continente como se fosse uma humana comum e se sentindo viva novamente. Ainda que essa sensação só tenha se assentado completamente quando encontrou a paixão nos braços da grã-mestra. — Entendo muito bem.

***

— Deve estar cansada da viagem — Lenór disse para Amani. — Venha, irei levá-la para o castelo. Infelizmente, ele não possui muitos quartos, mas pedi que preparassem meus próprios aposentos para você. Tenho certeza que se sentirá confortável nele.

— Não precisa se preocupar, minha menina. Sei que está fazendo isso com bom coração, mas eu não me importo com o conforto de uma cama ou o calor de uma lareira. Ficarei satisfeita em dormir no Templo.

— Templo?

Amani demorou um pouco para responder, enquanto aceitava uma taça de vinho da mesma moradora que serviu Lenór, momentos antes.

— Sua confusão não me surpreende, embora me entristeça — ela olhou em volta, tomou um gole da bebida e suspirou. — Este lugar foi construído sobre o Templo de Aliand, deusa da benevolência, protetora de Avashtur e da Árvore Sagrada, Maon.

— Espera, o quê? Como assim? — Lenór levou a mão aos cabelos. — O-os túnéis… abaixo do castelo e da cidade… é isso que eles são? Um templo?

— Sim.

— Mas, se é assim, deveríamos ter encontrado… sei lá, estátuas e locais de oferenda! Não há nada lá embaixo.

— Só porque você não vê, não significa que não está lá, Lenór — a rainha enaen sorriu, complacente. — Não se preocupe com isso agora, amanhã conto tudo para você.

A jovem enrugou o cenho, pensativa. Olhou para a taça que ainda segurava e tomou um grande gole de vinho.

— Este lugar não cansa de me surpreender — resmungou, escondendo um sorriso por trás da taça. Como a mãe disse, a preocupação com o assunto não cabia naquele momento, então deu de ombros e relaxou.

— Aproveite a alegria que nos cerca e divirta-se. Amanhã conversaremos sobre isso e o que mais desejar. Também gostaria de ver Aisen. Sinto seu sofrimento.

Lenór curvou os ombros, sentindo uma pontada de tristeza e preocupação.

— Ela não está bem, mas Mestra Marie tem cuidado dela. Desde que tudo acabou, Yahira não sai do lado da sua cama… E falando nela, o que pretende fazer com Yahira?

A expressão da mulher mais velha era serena, ela brincou com uma mecha de cabelos de Lenór.

— Nada.

— Mas ela tentou te matar.

— É verdade. Contudo, ela já recebeu sua punição. Perdeu o filho, perdeu a esposa, perdeu até mesmo a própria liberdade de decisão ao ser obrigada a fazer um voto de lealdade com um monstro como Vans. Não acha?

Pensativa, Lenór concordou com um meneio de cabeça. Ela não era tão evoluída sentimentalmente como Amani, mas compreendia sua forma de pensar. E, sendo sincera consigo mesma, realmente sentia pena de Yahira. Lamentava, principalmente, por Aisen.

Ela expulsou o ar dos pulmões com um longo suspiro. Então, sorriu e disse:

— Tudo bem, vamos seguir seu conselho. Por esta noite, aproveitemos a alegria que nos cerca e amanhã voltaremos para a dor de cabeça que é este lugar. E já que você não quer dançar comigo, é justo que eu procure outro par.

Amani riu gostoso, ante a forma que se expressou. Lenór beijou sua bochecha antes de entregar seu cálice para uma pessoa qualquer e caminhar até Vanieli, tomando-a dos braços do rei graciosamente. Mardus fingiu-se ofendido, mas logo encontrou outro par.

— Você parece tão feliz — a Kamarie observou.

— É porque realmente me sinto assim, amor. Você é minha vida — sussurrou.

— E você a minha, Lenór — Vanieli respondeu, o sorriso largo e os olhos dourados mais brilhantes sob a luz da fogueira. Enroscou o pescoço dela com seus braços e a beijou.

— Nós estamos em público — Lenór avisou, um sorriso discreto nos lábios.

— Eu não me importo. Vamos escandalizar Cardasin de vez.

Lenór gargalhou alto.

— Já imagino o teor da próxima carta que você receberá da sua mãe.

— A qual terei imenso prazer em responder dizendo que só estava expressando o meu amor pela mulher mais incrível e maravilhosa deste reino e mundo. Eu te amo, Lenór Azuti.

***

Amani sorriu, admirando o casal que bailava, entregue a uma conversa carinhosa. Então, caminhou até Voltruf e Virnan.

— Demorou alguns milênios, mas aqui estamos outra vez — ela disse para as duas. — E seu destino se cumpriu ou… quase. Curioso.

Seus olhos estavam sobre Voltruf quando finalizou a frase.

— Você riu quando te falei que, um dia, usaria uma coroa.

— Achei que era apenas uma piada — Virnan retrucou, os ombros subindo e descendo rápido, num gesto de descaso.

Quando se tornou rainha de Flyn, queria apenas unificar seu povo para que estivesse em harmonia diante da guerra que se aproximava. Quando tudo acabou, quis entregar a coroa para alguém mais “adequado”. Os nobres não permitiram, usando como desculpa o fato de Flyn ter passado três milênios escondido do mundo, cujas leis e tradições atuais eram, totalmente, diferentes do que recordavam. Era preciso um soberano que soubesse como se comportar nesse novo mundo.

Virnan aceitou a missão por um ano. E quando o prazo acabou, foi o povo que não permitiu seu afastamento. Desde então, a cada ano, no aniversário de seu governo, ela consulta os nobres e o povo. Se eles estiverem satisfeitos com o modo como ela conduz o reino, usará a coroa por mais um ano. Se a resposta for negativa, ela a passará adiante.

— Não faço piadas com o destino, assim como não me surpreendo com ele. Ao menos, era assim até a reencontrar, Voltruf. Não sei o que isso significa ou como aconteceu, mas… o seu destino mudou.

— E acho que o futuro também — Lyla se aproximou, o rosto afogueado pela dança recente. Dispensou uma pequena reverência para Amani.

— Ah, você tem o dom tempo… — constatou a enaen, admirando o rosto bonito e os olhos violeta dela. — Você é a rainha anterior de Flyn?

— Sim, minha senhora.

— Por que acha que o futuro de Nária mudou, Lyla? — Virnan perguntou.

Fora Melina, ela era única pessoa que chamava Voltruf pelo seu verdadeiro nome.

— Aconteceu algo estranho quando ajudei Marie a resgatá-la do abismo. Eu tive uma visão do futuro dela, na verdade, do seu Círculo, irmã. Mas, a visão partiu de Voltruf. O que é impossível…

Voltruf se empertigou, o maxilar travado por um instante. Disse:

— Porque eu já morri e minha atual existência está conectada a vida de Marie. O futuro dela é o meu futuro. Em teoria.

— É isso aí, tigresa!

Amani inspirou fundo, tomou um gole de vinho e colocou o cálice sobre a base da estátua a qual Virnan se recostava.

— Seu destino sempre foi se tornar um spectu, Voltruf — contou, séria. — Encontrar na morte o equilíbrio e honra que sempre buscou em vida. Mas, esse destino mudou e não sei dizer o que isso representa, tampouco, consigo enxergá-lo com clareza. Isso nunca me aconteceu.

Volt encarou o céu estrelado, os braços cruzados como se estivesse com frio. De fato, estava. E essa era mais uma das estranhas reações que seu corpo vinha apresentando desde que foi até o abismo sozinha. Como espírito, ela não dormia, não tinha sede, nem fome ou frio… Ela não sonhava, mas na noite anterior ela dormiu e sonhou.

Com uma pequena careta, ela molhou os lábios com a ponta da língua e se virou para Lyla:

— Talvez, você possa nos ajudar a entender — estendeu a mão para Lyla, que a encarou com um vinco a se formar na testa. — Algo aconteceu comigo no abismo e ainda não compreendi bem o que se passou. É tudo muito confuso. Meu tempo, lá embaixo, pareceu um sonho. Bom, na verdade, em alguns momentos era puro pesadelo.

— Passado ou futuro? — Lyla perguntou, ainda encarando a mão dela.

— Passado — Volt respondeu sem hesitar.

— Nunca fiz isso com um Spectu, não sei se vou conseguir — admitiu a outra, ainda encarando a mão dela.

— Mesmo assim, gostaria que tentasse.

— Seja lá o que for, Marie não seria melhor para isso? — Virnan interveio. — Ela é sua mestra, Nária, as duas estão conectadas por um voto mágico e sagrado. Ela pode não ver passado e futuro como Lyla, mas é capaz de compreendê-la de uma forma que ninguém mais seria.

A outra fez uma expressão de lamento, ciente de que havia verdade do que ela dizia. Contudo, não era tão simples. Ao menos, achava que não.

— Eu não saberia explicar para ela, Virnan, mas o dom da visão de Lyla pode me ajudar a entender.

— Se é assim, que tal fazermos isso amanhã, na presença de Marie e das nossas amigas? Hoje elas gastaram um bocado de magia na última sessão curativa de Melina e precisam de um bom descanso. — Virnan perguntou para Voltruf, mas lançou um olhar significativo para Amani, cujo suave inclinar de cabeça funcionou como uma resposta positiva.



Notas:

Obrigada por ainda estarem aqui.

Beijos!




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