Texto: Carolina Bivard
Ilustração: Táttah Nascimento
Parte 2
Elizabeth Evernood havia se vestido de preto dos pés à cabeça. Botas de couro baixas, calças confortáveis para permitir que se movimentasse livremente, uma blusa grossa de algodão, para o mesmo fim, um sobretudo que escondia sua arma e finalizou o estilo com chapéu masculino. Antes de entrar no depósito que Kendrall havia marcado, resolveu colocar seu echarpe em torno do rosto para escondê-lo. Se seu amigo tivesse levado alguém, não queria que essa pessoa visse seu rosto, ou soubesse a sua identidade.
Tudo estava muito quieto. O depósito não era grande, entretanto inúmeras caixas dispostas desordenadamente, impediam a passagem e a visão. Evernood retirou a sua arma do coldre escondido pelo sobretudo. Algo a incomodava. Tentou andar silenciosamente entre as caixas até ter uma visão melhor do lugar.
— Fique parado! Largue a arma e coloque as mãos para cima.
A voz rude veio acompanhada de uma arma colada atrás de sua cabeça. A detetive particular hesitou por segundos, todavia resolveu fazer o que o homem lhe pedia. Abaixou lentamente para colocar a arma no chão e se levantou com as mãos para cima.
O homem a empurrou para frente, conduzindo-a no labirinto de caixas até chegar a uma área mais aberta. Evernood se condenava por não ter escutado os passos do agressor. Assim que viu a forma como as caixas estavam dispostas no depósito, teve certeza de que algo estava errado, pois não estavam largadas aleatoriamente. Não queria acreditar que o amigo de longa data tivesse a entregado aos sequestradores de Browen.
Quando virou no último bloqueio de caixas, pôde ver seu amigo amarrado e sentado em uma cadeira, cercado de outros dois homens armados também. Ele estava com o rosto inchado e coberto de sangue, assim como suas roupas.
— Me desculpa. – Kendrall sussurrou com dificuldades. – Eles estão com a minha mulher e filhos. Sabe que se fosse somente pela minha vida, não faria isto. Morreria antes.
— Cala essa boca, seu verme!
Um dos homens o chutou no peito e ele caiu com a cadeira para trás. O outro riu sarcasticamente e o chutou novamente, antes de levantar a cadeira para que ele se sentasse outra vez.
— Além de trazer esse negro para cá, quer saber dele? Por que não mostra seu rosto para vermos com que imbecil estamos lidando?
Evernood não se moveu. Se aqueles homens queriam saber quem era ela, eles mesmos teriam que se aproximar para tirar seu lenço. Estava mais que grata por seu amigo Kendrall, apesar de ter sua própria família ameaçada, conseguir mandar o recado para ela sem revelar a sua identidade. Não sabia como ele tinha feito isso, mas o tiraria dessa enrascada, nem que para isso colocasse sua própria vida em risco.
— Tira essa porcaria logo!
Eles não querem me matar, antes de saber com quem estão lidando… Certamente não querem matar alguém poderoso demais e deflagrar uma investigação mais abrangente. São paus mandados e acham que não vale a pena o custo.
Ela pensava rapidamente, entretanto, não se moveu.
— Arranca essa porcaria logo dele!
O agressor que parecia ser o chefe, mandou o homem que estava apontando a arma para ela retirar o lenço.
Meu disfarce foi bom. Nem sabem que sou mulher. – Pensou. – Edwin, espero que esteja próximo, vendo o que está prestes a acontecer…
Assim que o capanga se colocou a seu lado para retirar o lenço, Evernood girou nos calcanhares para segurar a arma que ele havia baixado e deu uma cotovelada em seu nariz. Segurou o revólver, ainda na mão do agressor, disparando contra o joelho do suposto chefe. Escutou outro disparo e viu Edwin chutar o rosto do segundo homem da gangue.
Ela derrubou o seu agressor e desacordou-o com uma coronhada na cabeça, roubando de vez a arma dele e apontou para os outros. Estavam caídos. Evernood sabia que não conseguiriam mais reagir, após ver que Edwin atingira também o joelho do capanga. Era o tipo de lesão que, além de deixar o oponente incapacitado, gerava uma dor terrível.
Se aproximou e chutou a arma do primeiro, golpeando-o no queixo logo em seguida. O capanga desacordou como o outro e depois foi até o chefe e fez o mesmo. Começou a desamarrar o amigo e, com as cordas, amarrar os meliantes.
— Minha família, Beth. Temos que achá-los.
— Primeiro vamos a sua casa saber se foram sequestrados mesmo. Não creio que tenham feito isso.
— E por que, não?
Kendrall perguntou com dificuldade. Tinha o rosto ensanguentado, com hematomas e inchaço dos socos que recebeu.
— Porque estive com você após o almoço e só foi pego por esses homens depois que começou a fazer perguntas por aí. Não houve tempo para chegarem até sua família. Você mora fora da cidade. – Ela terminou de desamarrá-lo. – Vamos rápido. Estamos com o carro aqui perto. Vamos até sua casa.
Edwin e Evernood apoiaram o amigo e saíram do galpão, se esquivando pelas sombras. Tinham que se apressar para chegarem até a família de Kendrall. Quando aqueles homens acordassem, levariam um tempo para se desamarrarem, contudo, depois iriam diretamente aos seus empregadores relatar o ocorrido.
Na manhã seguinte, Evernood se sentava em seu escritório, tomando seu desjejum. Normalmente se alimentava de manhã em sua mesa da sala de jantar, porém, a noite havia sido agitada e havia dormido pouco. Tinham chegado à casa de Kendrall e sua família estava em segurança, porém, sabiam que os sequestradores haviam descoberto a identidade da família.
Evernood os retirou da casa e emprestou um carro para irem ao norte. Assim que chegou na sua casa, Elizabeth ligou para seus empregados da casa de campo em que Kendrall ficaria com a família, pedindo que os recebesse. Ele se ausentaria de sua empresa pelo tempo que durasse a investigação.
Kendrall foi um bom companheiro na época que trabalhava para Agência de Inteligência e assim como ela, quis se “aposentar” da vida ligada ao governo. Ele poderia contar com ela e era uma dívida de honra que ela não romperia.
Bateram à porta, tirando Elizabeth de seus pensamentos.
— Entre.
— Eles já estão na casa em Cliver.
— Ótimo.
Ela respondeu secamente para Edwin. Ele a conhecia bem para saber que Elizabeth estava aborrecida com a situação.
— Margareth virá com Thomas, depois que ele reportar o desaparecimento do Browen na polícia. Não demorarão a chegar.
Evernood tomou um gole de seu chá e pousou a xícara no pires da mesa em frente a ela.
— Você sabe o que mais me irrita, Edwin?
O mordomo, amigo e companheiro de investigação ficou confuso com a abordagem.
— Não.
Respondeu simplesmente.
— É que, quando pegarmos o safado que está por trás de tudo isso, será alguém que conheço de minha convivência.
— Isso é fato. O que não entendo é que, pegar alguém da sua roda nunca lhe incomodou. Por que se questiona agora?
— Está enganado. Não me questiono somente agora. Esse é o meu preço a pagar, simplesmente. A cada caso que desmantelamos, morro um pouco… – ela encrudesceu seu semblante – … por saber que as atrocidades são feitas por pessoas ditas de “bem”.
— Está cansada de saber os horrores da sociedade? Quer deixar de ser investigadora?
Ela pegou a sua xícara de chá e tomou o último gole, pousando outra vez a xícara no pires. Levantou-se e colocou as mãos nos bolsos da calça larga de linho. Reparou em seu fiel amigo.
— E o que faria com a minha fortuna herdada, senão gastar com leviandades como meter pessoas horríveis na cadeia?
Edwin riu do bom humor renascido de sua empregadora e amiga. Conhecia seu vigor e sua integridade. Mesmo cansada das perversidades que via em sua classe social, ela tinha convicção sobre a sua competência em mudar, mesmo que um pouco, o status quo da sociedade em que vivia. Essa era a sua luta.
Uma hora mais tarde, Margareth e Thomas chegaram na residência Evernood. Elizabeth os recebeu em seu escritório/biblioteca. Edwin fazia às vezes de mordomo como sempre. Thomas estranhou, pois o conhecera como um amigo e sócio da senhorita Evernood.
Após Edwin sair, Thomas intrigado perguntou:
— Por que ele não está conosco?
— São as aparências que contam para que não sejamos bisbilhotados. Edwin é meu amigo de muitos anos, mas, quando retornei para a cidade, ele não tinha posses. Eu lhe dei um emprego formal, mas somos sócios nas investigações.
— Entendo… Para a sociedade ele é invisível.
— E para mim, é meu sócio e investigador como eu.
— Ninguém se interessa pela vida de um empregado. Compreendi… – Thomas estava mais tranquilo e perguntou incisivo: – Acha que dará certo esse estratagema que estamos fazendo?
— Veremos quem vai se pronunciar nessa investigação. – Elizabeth se virou para a namorada. – A Crimes Graves pegará o caso?
— Apelei no distrito para Greendwish. Ele estava impaciente, por não ter crimes mais sérios nas últimas semanas. – Ela exprimiu um sorriso desanimado. – É contraditório. Se temos crimes hediondos, a cidade fica em polvorosa e se não temos, logo os políticos querem acabar com a divisão. Ele agarrou a denúncia como se a vida dele dependesse disso.
Evernood assentiu pesarosa.
— A vida política e profissional dele, depende mesmo de um crime grave para a divisão. Escutei do Comissário Geral do governo na festa da casa de vocês, que talvez a Crimes Graves não seria tão necessária, pois não estavam tendo “acontecimentos” para sustentar a divisão.
Evernood enfatizou a palavra acontecimentos para fazer sua namorada e o irmão entenderem a situação da divisão de Crimes Graves.
— Querem acabar com a minha divisão?
— Talvez sim, ou talvez não. – Evernood era quem demonstrava desanimo desta vez. – Políticos não se interessam pela segurança ou pela forma certa de se fazer as coisas; se interessam com a popularidade.
— Por isso que quis que me apresentasse?
Thomas perguntou, sentindo-se manipulado.
— Não, Thomas! – Elizabeth se aproximou do rapaz, segurando suas mãos entre as dela e o encarou sincera. – Sugeri que se apresentasse exatamente pelo motivo que sua irmã lhe falou. Será mais fácil proteger você, pois quem quer que seja que está fazendo isso, pensará duas vezes antes de atentar contra sua vida. – Ela respirou mais profundamente, antes de continuar a falar. – Nos dará mais tempo também, para encontrarmos Browen se ele ainda estiver vivo.
— Bem, deu certo a sua estratégia. – Margareth se pronunciou. – Greendwish agarrou a oportunidade e o jornal apareceu no escritório.
— Então, vamos delinear nosso próximo passo. Se ainda não mataram Browen, não farão, até verem o rumo das investigações.
— E se mataram?
Thomas perguntou preocupado.
— Será pior para nossa investigação. – Evernood respondeu compadecida. – Esconderão seus passos a qualquer custo e não farão nada durante muito tempo para que não sejam descobertos.
Edwin bateu na porta do escritório e não esperou para que o mandassem entrar. Passou pelo vão ligeiramente aberto e fechou a porta atrás de si.
— Acharam o corpo de um homem negro nas margens do rio, bem depois das docas. Não é Browen, pois Violet foi quem periciou o local e me ligou assim que retornou ao necrotério.
— Ela viu a foto de Browen quando conversamos no pub.
— Não viu somente no pub, Beth. – Margareth alertou. – Assim que Thomas e eu fomos abrir a investigação, hoje de manhã cedo, passei as fotos dele que mandamos fazer. Ela não se enganaria.
— Tenho que ir ao necrotério. Quero ver a autópsia, mas não posso ir oficialmente.
— Isso é fácil de arranjar, Beth. – Edwin respondeu. – Meu relacionamento com Violet é oficial. Todos do distrito policial sabem que somos noivos. Eu entro pela porta da frente e distraio o pessoal do laboratório e, você entra escondida pela parte de trás, onde o carro oficial desembarca com os cadáveres.
— Então vamos. Corpos não aparecem todo dia boiando na margem do rio.
Deixaram Thomas na casa dos Blindwar. A detetive particular saltou numa esquina anterior ao distrito policial, pois Edwin deveria estacionar seu carro próximo para chamar atenção dos bisbilhoteiros de plantão. Seria mais fácil para Evernood se esgueirar para a parte de trás do necrotério.
Assim que o pretendente da senhorita Lister chegou e se apresentou na recepção com um lanche para levar para a legista, reparou que os olhares dos policiais que circulavam pelos corredores se voltaram para ele. Edwin não sabia dizer se por inveja, ou somente curiosidade. Afinal, Violet nunca deixou que se aproximassem muito, por medo de ser mal interpretada pelos rapazes da força policial. Foi autorizado a entrar, depois que o policial da recepção enviou alguém ao necrotério para perguntar a médica se o receberia.
Ele caminhou calmamente pelos corredores, esperando a detetive particular entrar sem problemas. Quando chegou na antessala do necrotério, pôde ver que sua empregadora e sócia já participava da necropsia.
— Não é que conseguiu chegar antes de mim?
Evernood sorriu em agradecimento ao amigo pela distração.
— Quem manda namorar a médica legista? Não sabe que o distrito inteiro tem inveja de você?
— Distração seria se soubessem que a senhorita Evernood namora com a única policial detetive daqui.
Violet retribuiu a brincadeira, sem tirar o olhar da base do crânio do corpo a sua frente.
— Aí, não seria uma distração Violet, seria um escândalo nas rodas da alta sociedade.
Evernood retrucou, contudo, não tirava o olhar da dissecção que a legista fazia na parte posterior da cabeça do morto. Lister havia cortado a pele e rebatido para ver o que ela julgava ser uma lesão no osso occipital.
— Esse homem não foi morto. Sofreu uma queda e morreu pelo impacto. O osso occipital está fraturado e a medula seccionada na base do crânio, condizente com um trauma por avulsão.
— O que isso quer dizer?
Edwin questionou sem entender o que a namorada relatava.
— Quer dizer que ele caiu e sua cabeça se esborrachou no chão duro…
— … ou uma pedra ou até mesmo o meio-fio da rua.
Lister corrigiu a detetive particular.
— Sim. Bateu em algo duro. – Evernood se corrigiu.
— E por que a medula se rompeu?
— O impacto foi tamanho que a cabeça do rapaz literalmente quicou. O corpo ficou imóvel no chão pelo peso e velocidade e a cabeça se projetou, puxando a medula. Ele morreu imediatamente.
Evernood pensou por uns instantes e voltou a questionar a legista.
— Alguém poderia ter empurrado esse homem para que ele se desiquilibrasse e caísse?
— Poderia sim, mas não agarrando ou esmurrando. Se acontecesse dessa forma, ele teria abrasões ou escoriações perimortem e não há. É mais fácil ele ter feito força sobre alguém e por uma reação contrária de seu opositor, ter sido lançado ao solo.
Evernood se animou, pensando no amigo de Thomas.
— Violet, você tira fotos dos mortos que chegam para autópsia?
— Sim. Eu fotografo tudo para deixar no arquivo da autópsia, além de fotografar na cena original.
— Poderia me dar uma cópia da foto de rosto?
— Posso sim.
— O que está pensando, Beth?
— Estou pensando, meu caro amigo, que já tem um tempo que não acontece nenhum crime ou morte próximo as docas. E se esse homem que está aqui for aquele que abordou Browen?
— Acha que foi Browen que provocou a morte dele? Eu não sei, Beth… – Edwin passou a mão por sua nuca pensativo. – É um tiro no escuro. Seria muita coincidência.
— Coincidência não, Edwin. Na verdade, é porque não acredito em coincidências que pensei sobre isso. Não estão ocorrendo mortes nas docas ou próximo a elas há um tempo. Lister me contou que esse homem está morto há dois dias.
— Quando Browen desembarcou…
— Exato.
— Acha que ele tentou prender Browen e ele reagiu?
A legista questionou, pensativa. A lógica da detetive particular fazia sentido.
— É somente uma especulação, Violet. Por esse motivo que quero a fotografia do rapaz. O contato de Edwin poderá dizer se foi ele quem viu junto a Browen no dia de chegada.
— Vou pedir para o fotógrafo fazer uma cópia imediatamente.
— Tente dar uma desculpa para o pedido da cópia, Violet.
A legista parou seu passo na saída da porta.
— Vocês ainda farão com que eu perca meu emprego.
— Não se preocupe, amor. – Edwin comentou. – Se perder seu emprego aqui, o laboratório do legista voltará para a universidade.
Ela riu, sabendo que a sala de necrópsia do distrito policial era um apêndice de seu laboratório na universidade. O governo havia aberto o espaço no último ano, somente para agilizar a integração dos detetives com a necropsia. Seu trabalho real era na universidade.
A cópia da fotografia levou algumas horas para revelar e Edwin só pôde falar com seu contato à noite. Quando voltou para a mansão, Elizabeth havia saído sem deixar recado.
— Merda, Beth! – Falou para si mesmo, indo ao quarto para pegar sua arma. – Não poderia me esperar?
Ele saiu da mansão pela passagem do pub para que os empregados não o vissem. Tinha certeza de que ela iria ao cais procurar Browen sozinha. Não demorou muito para chegar nas docas e caminhou tranquilamente pelas ruas malcheirosas. Estava frio e o vento do rio parecia entrar por brechas do sobretudo que vestia, as quais não imaginava que existiam.
Observou discretamente os bares e as pessoas que passavam, distraídas e risonhas. Àquela hora, prostitutas, trabalhadores e viajantes que chagaram no último navio se misturavam. Era bom para quem queria se esconder a vista de todos e ver o movimento dos meliantes.
Mas você não está aqui, não é Beth? Por que estaria?
Edwin sempre foi a sombra discreta de Evernood e não estava acostumado a caçá-la para a proteger de si mesma.
— Onde você iria procurar o rapaz?
Falou para si, tentando pensar com a lógica de sua amiga. Tinha certeza de que Evernood acreditava que Browen se escondia e não estava preso por alguém.
— Se eu fosse negro, num país diferente do meu, onde me esconderia?
Parou em frente a um bar. Olhou para o movimento e a algazarra dos clientes, mas seu pensamento divagou.
— Merda! Merda! Você foi ao bairro da “Trilha”!
Ele se apressou, retornando pelas vielas em direção a periferia do cais. Era perigoso uma mulher branca, na escuridão da noite, entrar no bairro dos trabalhadores negros. Ela seria encarada como uma intrusa. Tentou ser o mais discreto possível, escondendo o rosto na lapela suspensa do sobretudo, pois ele mesmo não seria bem encarado no bairro.
Chegou à rua dos pubs e viu muitos homens e mulheres transitando, distraindo-se com música e conversas. Para sua infelicidade era uma rua bem iluminada com lamparinas coloridas, dispostas em cada entrada dos estabelecimentos.
— Parece que está perdido, senhor.
Uma mulher sorridente o abordou e o rodeou, como que o avaliando.
— Estou procurando uma amiga.
Edwin respondeu, sem alarde, esperando que a mulher não chamasse muito a atenção de outras pessoas.
— E como é essa mulher? Não vale falar que é preta, porque todas aqui são. – Ela gargalhou. – Tem que descrever melhor que isso.
— Ela é branca. Viu alguma mulher branca andando pelo bairro hoje à tarde?
— Depende… Tem algo para me dar por essa informação?
— Eu tenho que pagar por uma informação?
Ele a encarou. Não era estúpido a ponto de tirar a sua carteira e mostrar o conteúdo. Ela sorriu mais brandamente.
— Você deve ser o homem branco que a minha amiga branca comentou. Vamos ver se é você mesmo: Qual o seu nome?
Ele relaxou ao ouvir a mulher e quase riu de si mesmo. Lógico que Elizabeth não viria para o bairro se não conhecesse alguém.
— Edwin. Meu nome é Edwin.
A mulher riu e segurou a mão dele, conduzindo-o a um pub onde a música tocava alto. Entraram e quando a sua cicerone começou a puxá-lo para o fundo, ele travou e a encarou sério.
— Qual o nome de sua amiga branca? Eu falei o meu, mas você não disse o nome dela.
— Senhorita Evernood. – Ela sorriu novamente, porém era um sorriso mais aberto. – Não se preocupe. Se é amigo dela, é amigo de todos que estão aqui. Venha que ela está esperando por você.
Edwin acompanhou a mulher que parecia conhecer todos no estabelecimento, desde clientes eufóricos até o funcionário mais sisudo. Ao chegar na parte do fundo do pub havia um corredor escondido por um pano e quando passaram por ele, duas portas se descortinaram à frente; uma ao lado direito e outra à esquerda. A mulher que o conduzia abriu a porta da direita e fez um sinal para que entrasse.
O parceiro de investigações de Evernood espiou primeiro, antes de entrar, arrancando um riso da anfitriã. Era um ambiente pequeno onde havia barris de bebidas na parede do fundo e uma pequena mesa ao centro. Evernood conversava seriamente com um homem preto de barba na casa de quarenta anos e mais dois rapazes que não deviam ter mais que vinte e cinco.
— Que bom que me encontrou, Edwin. Venha se sentar conosco. Precisa ouvir o que Raí está me contando.
Edwin entrou e embora estivesse contrariado com a Elizabeth não demonstraria na frente de pessoas que desconhecia. Assim que ele se sentou em uma cadeira colocada por um dos rapazes, o homem do qual Evernood falara contou-lhe rapidamente o que já havia falado para a “amiga branca”.
— O rapaz que estão procurando ficou aqui por dois dias, depois de se livrar dos sequestradores que o abordaram no cais do porto. Quando o acolhemos, ele estava ferido e tinha matado Cajar para se livrar do cativeiro.
— Esse é o homem achado pela polícia na beira do rio?
— Sim, ele mesmo.
— E quem era ele e o que queria com Browen?
— Cajar não é bem-visto por aqui, mesmo que more nas redondezas. Ele trabalha como capanga para o senhor Mcvar, dono de uma empresa de importação. Ele tem alguns galpões para suas mercadorias e a maioria no porto, mas tem também dois que ficam aqui no nosso bairro.
— Alguns dos trabalhadores do porto que moram aqui, – um dos rapazes continuou a história – viu quando Cajar abordou o rapaz no cais. A notícia se espalhou pelo bairro, pois sabíamos que nada de bom poderia acontecer com ele. Quando Browen apareceu ferido pelas ruas do bairro, sabíamos que tínhamos que ajudá-lo.
— E por quê? Ele não era conhecido de vocês.
— Porque se Cajar o trouxe para algum dos galpões de Mcvar daqui do bairro, certamente atrairia confusão para nós com a polícia. – O senhor Raí encarou Evernood. – Não gostamos que a polícia entre aqui cassando alguém. Temos nossos problemas como qualquer bairro, mas quando eles entram aqui, não são respeitosos como quando entram em bairros brancos e você sabe disso.
— É, sei disso, Raí. Não se preocupe conosco, pois não traremos a polícia para cá. Tem minha palavra. Só queremos achar Browen. Ele é um estimado amigo de um amigo meu, como lhe falei. Ele o trouxe para cá para que recomeçasse a sua vida.
— Então porque Mcvar está atrás dele?
O outro rapaz perguntou, desconfiado. Não conhecia Evernood tanto quanto seu tio Raí.
— Eu não sei e é isso que queremos descobrir. Só posso dizer que ele viu coisas na terra dele que o fez querer sair de lá, e pelo que percebo agora, deve impactar em algo aqui.
Evernood respondeu ao rapaz e ficou pensativa.
— Me digam uma coisa; Mcvar importa o que?
— Pelo que sei, qualquer coisa. – Raí respondeu. – Tem épocas que chegam grandes quantidades de grãos de outros lugares, outras madeira… Já vi até armas compradas pelo governo virem através da empresa dele.
— Mmm… – Evernood calou-se uns segundos. – Sabem quem do governo tem contato com ele?
— Não. – Raí respondeu.
— Eu trabalho no porto. Já vi um homem branco, bem-vestido, ir ao escritório dele no cais algumas vezes. Não é como os outros brancos que vem de carruagem, ou um carro comum. O carro dele é daqueles fechados e caros e, as roupas dele são caras também. Dá pra gente perceber que é importante.
— Sabe o nome dele?
Edwin questionou o rapaz. Seu tio podia não o conhecer, mas no cais, as fofocas correm pelas ruas e ele podia ter escutado algum nome.
— Não.
— Por que Browen quis partir? – Foi a vez de Elizabeth questionar.
— Ele falou que não queria causar problema para nós. Insistimos para que ficasse para ele entrar em contato com o amigo, mas hoje cedo, havia partido sem nos falar nada.
Elizabeth e Edwin agradeceram e se foram com a promessa de levar a “confusão” para longe do bairro. No caminho até o carro, Edwin deixou sua frustração bordar sua reprimenda à amiga e empregadora.
— O que estava pensando, Beth? Vir aqui sozinha sem me falar?
— Não tive tempo de enviar nenhuma mensagem, Edwin e sabia que viria atrás de mim e me encontraria. Eu confio mais em você do que você mesmo.
— Não adianta me adular. Sabe do que estou falando!
— Eu sei, eu sei. Pode deixar essa reprimenda para depois? Eu prometo conversar com você sobre isso, após encontrarmos Browen. Agora temos pistas.
— Acha que Browen procurará Thomas, Beth?
— Não. Se eu estivesse na pele dele, acharia que Thomas me traiu.
— Achei o mesmo. – Edwin reafirmou o pensamento da detetive particular. – Na cabeça dele, os únicos que tinham conhecimento da fuga eram os dois.
— Sabemos que não é bem assim. Se a máfia das pedras preciosas e escravidão está nos escalões altos do governo na África, eles controlam os portos, aduana e compram até mesmo, os corruptos que venderam o passaporte de Browen para Thomas.
— Browen está ferido e confuso. Me deixe no centro, Edwin, que procurarei algumas pessoas para saber sobre os relacionamentos que Mcvar tem no governo.
— Eu vou procurar quem compra pedras preciosas para saber como as recebem e de quem. Se tem um importador envolvido, as pedras entram através dele. Isso é um fato.
A noite foi longa para os dois detetives particulares e na manhã seguinte, estavam de pé as oito horas para receberem a detetive de polícia Blindwar e seu irmão, mas logo cedo receberam uma ligação de Margareth. Não iriam à mansão Evernood, pois na noite anterior invadiram a casa de seus pais. Elizabeth partiu imediatamente para a casa da namorada. Tinham muito a conversar.
Ela foi com seu carro e o portão de entrada estava aberto. Policiais a abordaram, antes de estacionar em frente à casa. Ela se identificou e imediatamente foi liberada.
A porta da mansão Blindwar estava aberta e ela entrou sem cerimônias, visto que havia inúmeros policiais circulando pela casa. Foi até a sala de estar e viu que a senhora Blindwar estava sendo consolada pela governanta em um canto e, Thomas e Margareth conversavam com o detetive Dashwood em outro.
— Ah, minha filha! – Assim que viu a detetive particular e amiga da filha, a senhora Blindwar exclamou, indo de encontro a ela. – Algum desordeiro invadiu nossa casa esta noite.
A senhora da casa colocou o lenço em um dos olhos, como a limpar alguma lágrima que não caiu verdadeiramente.
— Não se preocupe, senhora Blindwar. Me juntarei a Margareth e a polícia para descobrir quem fez a invasão do lar de vocês. Nós o pegaremos.
Thomas se aproximou, comunicando que seu pai estava no escritório juntamente com o Comissário e, que pediu que assim que ela chegasse, fosse conversar com eles. Evernood assentiu com a cabeça e Thomas a acompanhou. No corredor, ele falou baixinho para a amiga de sua irmã.
— Beth, acho que quem esteve aqui foi Browen…
— Por que acha isso?
— Quando escutei o barulho da armadura caindo no topo da escada, saí de meu quarto imediatamente e vi um vulto descendo os degraus. A silhueta dele… Eu não posso afirmar que era Browen, mas parecia com meu amigo.
Chegaram à porta do escritório do senhor Blindwar e pararam antes de abrirem a porta.
— Vamos ver o que seu pai quer de mim. Suponho que seja contratar meus serviços. Não se preocupe, pois se ele me colocar na investigação conjunta com a polícia, saberei como atuar, se acaso descobrir que tenha sido Browen o invasor.
— Obrigada, Beth.
Evernood colocou a mão sobre o braço de Thomas, apertando levemente, consolando-o e abriu a porta para entrar. Se anunciou assim que passou do portal.
— Com licença, senhor Blindwar. Mandou me chamar?
— A sim, senhorita Evernood. Entre, por favor.
Meia hora mais tarde Evernood saía do escritório. Falou com Margareth que iria ver por onde o tal “meliante” havia entrado e passado. Após observar o rastro deixado pelo invasor dentro da casa, resolveu caminhar por toda a propriedade.
A casa embora fosse na cidade, era em um bairro onde os terrenos das tinham grandes extensões. Havia construções no final das terras e ela foi averiguar cada uma delas, desde a oficina, até um antigo estábulo. Cada passo que dava, um policial checava o lugar logo após.
Era irritante para Evernood atuar como detetive abertamente, pois sua fama de resolver casos tinha se espalhado entre a força policial. Muitos deles a seguiam pelo simples fato de tentar descobrir o que ela averiguava numa investigação.
Ela já tinha visto uma pista próximo a casa principal, mas tinha que se desvencilhar dos seus perseguidores/admiradores. Quando o comissário foi embora, levando o detetive Dashwood consigo, somente um policial foi deixado na entrada da propriedade como segurança. Era a dica para Evernood verificar a pista que tinha percebido próximo a entrada da cozinha.
Pegadas estavam marcadas na porta da adega secundária da casa. Era um depósito para barris de bebida que eram utilizados somente em grandes festividades e por esse motivo, a entrada era externa e não tinha ligação com a casa principal. Ela entrou cuidadosamente, sabendo que se houvesse alguém alí, poderia reagir com violência. Vasculhou tudo e saiu, voltando para se encontrar com a sua namorada.
— Alguma ideia de quem entrou aqui? – Margareth perguntou, mesmo que soubesse a resposta. – Andei por toda a propriedade logo cedo, Beth. O invasor não está mais aqui.
— Não, não está. – Evernood concordou. – Vá para o distrito e veja o que a perícia da polícia conseguiu e eu vou para casa. Me encontre mais tarde no pub. Temos que conversar sobre o que descobrimos ontem sobre Browen e talvez a gente ligue as duas informações.
Elas se despediram e Evernood retornou para sua casa na esperança de que Edwin pudesse ter descoberto algo mais com os contatos que fez durante a manhã. Ao fim da tarde, Elizabeth e Edwin receberam Margareth no escritório, em vez do pub. Meg havia convencido Thomas a ficar em casa com os pais para acalmá-los do incidente.
Não precisavam se esconder de uma visita informal da amiga de Elizabeth, mesmo para os outros empregados da casa. Evernood contou para Margareth o que ocorrera na noite anterior e Margareth discorreu sobre o que a polícia tinha encontrado na casa dela.
— Agora temos certeza de quem esteve na casa, Meg. – Elizabeth afirmou. – Browen está se escondendo e com medo.
— O problema é que ele está confuso, Beth. Não sabe que não é meu irmão que o persegue.
— Não importa. Ele tem que ser tratado, pois está muito ferido e pode não sobreviver. Temos que achar quem está por trás dos contrabandos das pedras e prendê-lo. Só assim o rapaz ficará seguro e seu irmão também.
— O que Edwin descobriu com seus contatos hoje?
— Vamos chamá-lo e ver o que temos.
Evernood tocou um sino e Edwin, como um mordomo eficiente, entrou.
— Edwin, traga para nós um Brandy e peça para que coloquem a mesa do jantar para nós duas, mas, diga que será servido daqui a uma hora. Assim poderá ficar conosco e nos inteirar do que descobriu.
— Deixe comigo. Darei tantas tarefas para o pessoal, que não terão tempo de especular o que faço aqui com vocês.
Ele sorriu de lado, saiu e retornou quinze minutos mais tarde com os cálices de Brandy. Se acomodou em uma das poltronas e começou a discorrer.
— Querem que fale diretamente ou conte tudo nos mínimos detalhes. Seja da forma que for, não vão gostar do que descobri.
— Se não vamos gostar, fale diretamente que o impacto vem de uma só vez. Depois você fala os meandros da história.
— Bem, metade da elite da cidade compra pedras preciosas desse joalheiro que recebe do tráfico. E, quem faz o contrabando é um proeminente diplomata e, – Edwin deu uma pausa na fala para causar mais impacto – ele é também um senador.
— Lions!
As duas detetives falaram juntas. Era o único senador que ainda acumulava o cargo de diplomata.
— É lógico! Como não vi antes? – Evernood se condenava por não perceber a relação. – Ele é o único que ainda atua nas esferas das relações internacionais e que tem poder no alto escalão do governo.
Margareth estava séria e seu semblante demostrava dor. Elizabeth estendeu a sua mão e tocou a dela delicadamente, chamando a sua atenção.
— O que foi, Meg? Algum problema?
Margareth elevou seu olhar triste para encarar Edwin.
— Quando falou que metade da elite da cidade compra as pedras desse joalheiro e disse que não gostaríamos do que ouviríamos, é porque meu pai faz negócio com ele também, não é?
Edwin emudeceu. Não esperava que Margareth percebesse tão rápido. Tentaria amenizar a revelação ao longo da conversa e não soube como respondê-la.
— É isso, Ed?
Ela o chamou pelo apelido, que para eles era um sinal de confiança mútua.
— É sim, Meg. Mas, em defesa de seu pai, a maioria que compra não sabe o que acontece. Acha que está comprando as pedras com um joalheiro comum…
— … Não precisa me confortar, Ed! – Ela falou mais irada do que desejava. – Não tem que o desculpar. Ele é um homem de negócios e que conhece a política. Se tem que esconder onde faz suas compras, seja o que for, sabe que é algo escuso, portanto, ilegal.
Margareth tomou o conteúdo do cálice de uma só vez. Elizabeth segurou sua mão e sentiu que estava trêmula.
— Não é bem assim, Meg. Lions deve ter apresentado o joalheiro para grande parte dos clientes, já que ele que os importa. Algumas pessoas podem saber do esquema, mas muitos somente confiam na palavra de um político proeminente.
— E o que Lions pode ter falado para essas pessoas para elas acreditarem que não há nada por trás da negociação?
— Que importam diretamente, mas que não podem trazer muitas pedras e que “seria uma oportunidade”.
Elizabeth a respondeu.
— E, também, que estavam em vantagem. Se falassem sobre isso, chegaria ao ouvido de outros joalheiros e estes, tentariam intervir, buscando estabelecer novas regras de importação e consequentemente, aumentaria o preço do produto. – Edwin complementou. – Não falo isso para lhe confortar. É o que eu faria no lugar de Lions. Ele não comprometeria sua posição política e de servidor, arriscando perder tudo se alguém não concordasse com a negociata.
Evernood e Edwin não estavam errados no pensamento, contudo, Margareth sabia que se havia pessoas enganadas com esse tipo de discurso, havia aquelas que sabiam da procedência das pedras preciosas. Mesmo sabendo que era ilegal, esses homens da elite compravam. Em que categoria seu pai se encaixava?
— Olhe para mim, Meg. – Evernood pediu e a namorada a fitou. – Vamos continuar a nossa investigação. Para proteger Thomas e Browen, temos que desbaratar essa organização criminosa liderada por Lions.
Meg inspirou fundo e se acalmou, recebendo um carinho no rosto pelas mãos de sua namorada amorosa.
— Durma aqui em casa hoje e amanhã de manhã vá para o distrito e, veja com Dashwood e Reymond o que descobriram do desaparecimento de Browen. Eu a encontrarei mais tarde lá. Vou averiguar a invasão da casa de vocês, como seu pai pediu.
— Vai até a minha casa?
— Não exatamente. Hoje, após o jantar, Edwin andará pelas cercanias para saber se a vizinhança percebeu algo diferente na noite de ontem.
— Acha mesmo que foi Browen que invadiu?
— Sim, acredito que seu irmão esteja certo. Vi rastros de sangue perto do depósito da adega. Browen não está bem e temos que achá-lo, antes dos capangas de Mcvar, o importador. Eu e Edwin atuamos por aqui e você com os detetives do distrito de polícia.
Elas foram chamadas por Edwin, pois o jantar estava sendo servido. À mesa, as conversas foram descontraídas. Falaram amenidades para que os empregados da casa não tivessem fofocas para disseminar fora da mansão. Ao final, subiram para se recolher e como sempre, Blindwar entrava no quarto ao lado de Evernood para só mais tarde, as duas se encontrarem no quarto principal.
A porta do quarto de Elizabeth estava destrancada e Blindwar entrou rapidamente. Ela odiava ter que agir nas sombras como uma delinquente. Seu rosto estava sério, beirando ao transtorno.
Elizabeth se aproximou, a abraçando e beijando seu rosto carinhosamente. Se condoía pela forma como tinham que se encontrar.
— Sabe que por mim, você viria diretamente para meu quarto, não sabe? Não me importo com os empregados ou com o que qualquer um pense.
— Sei que agimos desse jeito, porque eu mesma quis. Me odeio por isso. Me angustia ver que não posso ser eu, mesmo estando aqui em sua casa.
— Não, Meg! Não deve se odiar ou angustiar por isso. Eu sou mais livre, porque não tenho meus pais, ou qualquer outro para me controlar emocional ou financeiramente. Acha que não existem pessoas na nossa classe social que falam de mim?
— E você não se importa e eu sim. Por isso me odeio.
Margareth se desprendeu dos braços da namorada, retirando seu penhoar para deixá-lo sobre uma poltrona. Elizabeth se aproximou novamente, abraçando-a pelas costas. Apoiou seu queixo no ombro da namorada, beijando outra vez a sua face e lhe confidenciou no ouvido:
— Eu não me importo, mas me incomoda. Duas coisas bem diferentes. – Ela girou a namorada entre os braços, ficando de frente para ela. – Escute com atenção: Nós mulheres, somos presidiárias na nossa sociedade, independentemente de como amamos. Felizmente, nós duas ainda temos como brigar por um espaço, mesmo que não alcancemos o que desejamos completamente. A maioria das mulheres, não.
— Já tivemos essa conversa antes, e agradeço por me relembrar sempre. – Meg suspirou. – A maioria das mulheres é uma prisioneira em sua casa, seja ligada a maridos que nunca foram amorosos ou a pais que só as veem como mercadoria para um dote.
— Exato! Nós somos as bem-aventuradas, podemos lutar por um lugar melhor socialmente e quem sabe, um dia, essa situação mude para todas as mulheres.
Elizabeth beijou a namorada ternamente. Um beijo lento e amoroso, que aos poucos, foi tomando forma no desejo que tinham suprimido ao longo de uma semana inteira. O ar faltou e separaram seus rostos, fitando-se apaixonadas. Sorriram e voltaram a se beijar ardentes, acariciando-se mutuamente.
As alças da camisola de Margareth foram afastadas dos ombros por dedos delicados. Elizabeth apreciava cada parte da pele sedosa de sua namorada e seu corpo aqueceu, vendo-a arrepiar sob seu toque. Elas andaram até a beira da cama e Margareth se deitou, acolhendo Elizabeth em seu abraço.
As mãos não se sentiam mais à vontade em somente deslisar nos ombros e pescoço. Acariciaram-se pelas laterais, sôfregas. Despiram-se arfantes, esquecendo as vestes num canto qualquer, enquanto os dedos passavam por onde lhes davam prazer.
Os lábios da detetive particular deixaram a boca desejosa de sua amante, para pousar beijos miúdos nos ombros que tinham chamado sua atenção enquanto a despia. A pele de Margareth eriçou, fazendo seus seios enrijecerem, despertando a detetive particular para uma emoção mais ardente. Elizabeth alojou seus lábios nos bicos hirtos do seio da namorada, arrancando suplicas de prazer veladas através dos gemidos. Margareth retraiu o corpo em sofreguidão ao toque amoroso.
— Ah, meu amor! Como queria ouvir esse som! Estava com saudades…
Evernood sussurrou entre os dentes que sugavam o seio da amada.
— Ah… Chupa, vai…
Blindwar não conseguia reprimir o que sentia ou o que falava. Com a namorada, ela se permitia ser livre.
Os quadris se encaixaram, movimentando-se fortemente e apesar da excitação crescente, não conseguiam dar vazão ao prazer que sentiam. Elizabeth desceu o rosto, alojando-se entre as coxas de Margareth e libou o clítoris da amante. A detetive de polícia gemeu forte outra vez, enlouquecida pelo carinho recebido. Estava há dias imaginando Evernood lhe amando, mas nenhum pensamento libidinoso se comparava ao que sentiu.
“Mais forte! Mais rápido!”
Essa palavras saíam agoniadas da boca seca de Margareth. Ela arfava e o ar parecia não ser suficiente. O rosto afogueado deixava a pele vermelha mostrar o quanto ela desejava liberar sua paixão. Quando o gozo chegou, a detetive de polícia não se conteve liberando a voz num som alto e rouco.
— Ah!
O corpo sacodiu em tremores que foram acalmados pelo corpo de Elizabeth.
A detetive particular percorreu o caminho até os lábios da amada, beijando toda a porção de pele que encontrou pelo caminho. Ela chegou finalmente em seu objetivo. Cobriu os lábios de Margareth com os seus, pegando para si, toda a doçura do beijo da mulher que se instalou em seu coração.
As bocas se tocavam suaves e amorosas e Margareth ainda sentia que não estava completa, mesmo que seu orgasmo tivesse a a levado ao universo. Ela capturou os lábios de Elizabeth com ardor, beijando-a como se fosse o último dia de sua existência. Os corpos nus se enlaçaram em novo elevo e a detetive particular tateou o espaço entre ela, chegando ao cerne do prazer da namorada. Dedilhou com carinho entre as dobras úmidas, arrancando, desta vez, os sons da boca da amada.
— Você me deixa louca, Meg…
A voz rouca e trêmula, dizia a detetive de polícia que aquele era o caminho para dar o amor que ela havia recebido momentos antes. Tateou mais fundo na abertura, deixando um dos dedos sobre o clitóris, acariciando-o delicadeza.
Elizabeth se entregou, encaixando-se sobre o quadril de Margareth para que ela a penetrasse. Queria liberar seu desejo sem reservas. A detetive de polícia dançou a música da amada, penetrando fortemente, movendo cadenciada ao ritmo que ditava.
Evernood cavalgou, sentindo cada movimento dentro de si, fazendo crescer seu desejo. Seu corpo e sua vos não pareciam mais responder aos seus comandos. Ela se movia em direção ao ápice, enquanto escutava Margareth gemer, por lhe dar seu desejo pedia. Ela chegou ao gozo plena, pensando que nada mais na Terra, poderia ser tão maravilhoso quanto estar com a pessoa que amava.
Elizabeth deixou se corpo, lasso, se acomodar sobre Margareth, desejando aquele abraço até os fins dos tempos. Sorriu e beijou o rosto ds namorada carinhosamente.
— Acho que os empregados de sua casa não dormiram cedo… Fizemos muito barulho hoje.
Margareth gracejou preocupada, contudo, não se arrependia. Estava feliz.
— Eles têm liberdade para fazer o que quiserem em suas vidas particulares. Não sou uma patroa chata. Quem dorme aqui, não pode é reclamar dos barulhos que eu faço. Só isso.
Os dias cobraram o preço do cansaço. Elas dormiram aninhadas, caindo no esquecimento do dia que estava por vir.

