Caçadora (Degustação)

Prólogo

Brasil (10 anos atrás)

O coveiro socou a terra revirada, dando algumas pancadas com a pá. Enxugou o suor na testa e enviou um olhar penalizado para a moça de pé ao seu lado.

Todos que acompanharam o cortejo, haviam partido, mas ela permaneceu ali em um choro silencioso. As lágrimas deixando uma trilha dolorida em seu belo rosto. Ele a observou com mais atenção, agora que estavam sozinhos. Recordou que, há poucos dias, ela esteve naquele cemitério assistindo a outro sepultamento.

Era ainda muito moça, tinha um pouco mais que vinte anos, assim como aquela a quem ele tinha acabado de enterrar. Era um homem humilde e de pouco estudo, mas conhecedor do ser humano. Muitos iam até aquele lugar de descanso e choravam pelos entes queridos que ali deixavam, mas poucos derramavam lágrimas sinceras como as que via naquele rosto jovem e marcado pela dor.

Encolheu-se um pouco ao dizer, cabisbaixo e atropelando as palavras:

— A vida é uma caixinha de surpresas.

A moça lhe dedicou um olhar marejado, notando, pela primeira vez, o rosto cansado e marcado pelo tempo.

— Não faz nem uma semana que enterrei o pai, agora faço o mesmo com a filha. Que descansem em paz! — balançou a cabeça algumas vezes, sem perceber que seu comentário só fez com que o pranto dela aumentasse. Fez o sinal da cruz e se afastou lentamente, com a pá sobre os ombros e aliviado por poder partir.

Vanessa deixou escapar um soluço alto e caiu de joelhos sob o peso de sua dor. Se abraçou, desejando com todas as forças de seu ser, que aquele sofrimento acabasse. Ansiava acordar de repente e descobrir que tudo não tinha passado de um sonho ruim. Então, a luz do sol refletiu na aliança de ouro branco em seu dedo, ampliando o desespero.

Não era um sonho. Diana tinha partido para sempre.

Correu o olhar pelo céu azul e cheio de nuvens fofas como algodão. O vazio em seu coração tornando-se maior com a certeza de que os olhos castanhos, que tanta amava, jamais voltariam a admirar aquele céu; os lábios que tanto adorava beijar, não lhe sorririam mais, nem sentiria o calor de seu abraço.

Os planos que fizeram juntas, os sonhos que tinham, jamais iriam se realizar e blasfemou contra o destino e os céus, dobrando-se sobre o próprio corpo e sufocando os soluços até que os braços da mãe a envolveram, confortadores, e deixou-se guiar para longe. No entanto, tinha deixado seu coração naquele túmulo.

Nada voltaria a ser como antes, nem mesmo ela.

1. Malena

Espanha (1 ano atrás).

— Vamos, Al! — Lorena gritou para o amigo. — A festa é lá dentro, não aqui nos jardins.

Aleksei sorriu fracamente e mostrou o cigarro aceso. Lorena revirou os olhos e disse:

— Você tem cinco minutos. Se não voltar para a festa, mandarei Oliver à sua procura.

— Lorena, não sou criança.

— Exatamente. Você precisa conhecer pessoas e não vai fazer isso se escondendo aqui — ela sorriu e beijou o rosto dele, retornando para a festa em seguida.

O rapaz suspirou, deu uma última tragada no cigarro e o atirou no chão. Esmagou-o com o sapato lustroso e iniciou o retorno para a residência luxuosa em que a festa ocorria. Distraído com o celular, esbarrou em uma mulher.

— Perdão! — ele a segurou, impedindo-a de cair. — Você está bem?

Ela o fitou com uma expressão zangada, que logo suavizou. Aleksei segurou o ar, impressionado com a beleza diante de seus olhos. Pediu desculpas, novamente.

— Está tudo bem, foi apenas um acidente — ela sorriu. Aleksei sentiu o coração bater forte. A timidez, sua companheira fiel, quase o fez perder a voz.

— Deixe-me ajudá-la — ofereceu a mão para a mulher, que a segurou após um segundo de ensaiada hesitação. Então, se deixou conduzir até o topo da pequena escadaria, diante da qual estavam.

— Obrigada — falou ela, agora exibindo um sorriso sedutor. Começou a se afastar em direção à porta.

— S-sou Aleksei — gaguejou.

Ela interrompeu o passo, virando-se para ele.

— É um prazer, Aleksei.

Deu outro passo para longe.

— Não vai me dizer o seu nome?

— Mais tarde — prometeu. — Se você me convidar para uma dança.

Piscou, charmosa, e desapareceu no interior do salão. Aleksei suspirou e riu baixinho, aceitando a taça que Oliver lhe ofereceu. O amigo testemunhou o pequeno diálogo, encostado na madeira fria da porta.

Aleksei tomou um gole farto da bebida, passando os olhos pelo lugar. Embora agradável, a música o incomodava. A multidão também. Preferia as horas solitárias em seu laboratório, ouvindo jazz enquanto trabalhava. Porém, não era sempre que tinha a oportunidade de visitar os amigos. E passar a noite em uma festa cheia de possíveis patrocinadores para sua pesquisa, também não era de todo mal.

— Como seu amigo, me sinto na obrigação de alertar — Oliver se empertigou ao seu lado e ostentou um sorriso malandro após tomar todo o conteúdo da própria taça de um gole só. — Malena Villalobos não é flor que se cheire.

Escorregou a mão pelos cabelos longos e negros. Dessa vez, com um sorriso sarcástico.

— Malena? — perguntou o amigo.

Oliver ergueu o queixo e fez um movimento à frente, apontando para a moça na qual ele esbarrou. Aleksei escondeu o sorriso com a taça.

— É um nome tão bonito quanto a dona, mas o que quer dizer com “não é flor que se cheire”?

— Exatamente isso — Oliver colocou a taça vazia na bandeja do garçom que se aproximava. Pegou uma taça cheia e a esvaziou de um gole antes que o garçom se afastasse, então se apossou de outra.

— Aff! Você só não consegue aceitar que Malena resistiu ao seu charme vagabundo! — Lorena surgiu ao lado do irmão. Olhou para Aleksei. — Para ele, é inconcebível que uma mulher não se atire aos seus pés e se ofereça como um tapete para que a pise até que se torne um trapo.

Gargalhou gostosamente ao perceber que as orelhas do irmão mais velho ficaram vermelhas.

— Não lhe dê ouvidos, Al. Malena não é uma flor perigosa.

O objeto de seus comentários percorria o salão com passos suaves e muita graça, sendo conduzida pelo dono da festa, que a tirou para dançar. Os cabelos longos e negros balançavam graciosamente, pesando em suas costas cheio de cachos. O sorriso largo e muito branco não abandonava os lábios vermelhos. Era uma visão quase angelical.

— Então, você a conhece? — Aleksei perguntou, esperançoso. Não conseguia desviar o olhar de Malena que, naquele instante, dava uma pequena pirueta guiada por seu par. Dançava com tanta leveza que parecia flutuar. Uma estrela ofuscando tudo à sua volta.

Lorena sorriu de novo. Por um lado, Oliver tinha razão, a moça raramente aparecia nos eventos da alta sociedade, mas, quando o fazia, conquistava a atenção de todos os homens.

— Não somos íntimas, mas temos alguns conhecidos em comum e frequentamos as mesmas rodas e lugares — contou ela, também a procurando pelo salão. — Malena não é misteriosa, é apenas discreta. É herdeira de um magnata do petróleo, morto há alguns anos em um acidente aéreo. Uma rápida olhada na internet te dirá isso. Ela era muito jovem quando os pais morreram e se isolou do mundo.

— Isso é triste.

— Balela! — afirmou Oliver, ainda mais mal-humorado.

A irmã revirou os olhos.

— Ela é uma herdeira de milhões, Oliver! É natural que não deixe qualquer idiota entrar em sua vida ou que, pelo menos, seja discreta em seus casos amorosos. O seu problema é que ainda não superou o fora que ela te deu.

— Idiota! — Oliver a xingou, alterado.

— E pelo jeito que ela está olhando para o Aleksei, está na cara que tem bom gosto para homens — arrematou a moça, provocadora.

***

Do outro lado do salão, alheia à discussão dos três amigos, Malena Villalobos e seu par — o anfitrião —, encerraram a dança. Quase imediatamente, ela se apoderou de uma taça com o rosto afogueado pelo exercício. Sorriu jovialmente e deslizou o olhar para o rapaz louro que a admirava de longe. Foi um sorriso discreto, mas sugestivo o suficiente para manter o interesse de Aleksei.

— Acho que já está na hora de apresentá-los — disse seu acompanhante.

— Não precisa. Cuidei disso com um pequeno esbarrão há alguns minutos.

— Era de se esperar que você fugisse do que foi planejado. Você nunca me obedece! — queixou-se, embora tivesse um sorriso satisfeito enfeitando a boca. Ofereceu o braço para ela, que o aceitou e se deixou guiar por mais alguns metros.

Armand Favard era um homem de meia-idade. Seus gestos eram delicados e calculados, a  voz grave e macia. Era sedutor e atencioso na medida certa. Entretanto, por trás da boa aparência, dos sorrisos fáceis e gentileza, escondia-se um homem perigoso e inescrupuloso, cuja maior parte da fortuna foi obtida de forma ilícita.

No submundo do crime, ele era conhecido como Aquiles e, pela oferta certa, podia obter os mais variados itens, desde obras de arte até informações militares. Possuía um time de especialistas talentosos, oriundos de diversas partes do mundo, e não poupava esforços para atrair novos talentos para sua equipe, fosse com a promessa de glória e riqueza ou por chantagem.

Ele conduziu Malena pelo salão, parando em algumas mesas e enveredando por conversas e temas variados.

— Esse vai ser fácil — afirmou, olhando discretamente na direção de Aleksei e pegando outra bebida após ficarem sozinhos novamente. — Se não soubesse quantos diplomas esse rapaz tem, pensaria que é um parvo pela maneira abobalhada que te olha.

Malena concordou com um gesto suave e, outra vez, enviou um sorriso discreto para Aleksei. O rapaz ergueu a taça e ela o imitou, incentivando-o. Ela não apreciava aqueles joguinhos de sedução, no entanto, uma investida direta constrangeria Aleksei que, pelas informações que tinham, era muito tímido.

— Tão fácil que me pergunto se você não está me escondendo algo — retrucou e Armand exibiu uma fileira de dentes alvos e perfeitos.

Seu sotaque francês era suave, misturado a um espanhol impecável. Um detalhe que adicionava um pouco mais de mistério à sua figura, cuidadosamente criada para encantar até os mais desconfiados.

Armand a puxou para outra dança, conduzindo-a para mais perto do Dr. Aleksei e amigos. A dança atraiu alguns olhares cobiçosos e invejosos. Afinal, formavam um casal muito atraente, apesar de Armand ter idade para ser pai dela. Ele era um dos solteiros mais cobiçados de Madri, dono de uma conta bancária recheada de milhões e negócios por todo o globo. Era muito discreto com sua vida pessoal, porém, não se privava do convívio da alta sociedade, nem de aparecer nas colunas sociais ou de negócios.

— Não há segredos — afirmou, fazendo-a dar uma pirueta e a puxando para si, segundos antes da música chegar ao fim e encaminharem-se para a mesa, onde deixaram suas bebidas.

Ele tomou um gole da taça, cravando os olhos profundamente negros no rosto dela. Quando se conheceram, Malena era um diamante bruto e adorou lapidá-la. Contudo, a jovem superou o mestre e se tornou a melhor do ramo a que se dedicavam. Os clientes pagavam quantias exorbitantes para ser ela a realizar o serviço e, quando notou essa preferência, Armand não hesitou em exagerar nos preços.

Malena era linda, mas sua verdadeira beleza estava oculta por baixo da maquiagem, peruca e demais acessórios que usava naquele momento. Era mestra em mudar sua aparência, uma verdadeira camaleoa. Contudo, não era seu único talento. Ela conseguia mudar seu tom de voz e imitava os mais variados sotaques como se fosse uma nativa dos países dos quais eram oriundos.

De fato, o maior talento dentre todos os seus associados. Por isso, caprichou na história da identidade que ela assumia naquele instante. Malena Villalobos era quase perfeita. Um personagem idealizado para lhe abrir portas e dar acesso a lugares e pessoas que ele não podia alcançar diretamente.

— Você foi a minha melhor aquisição, Diana — afirmou, orgulhoso. A voz quase um sussurro ao pronunciar o verdadeiro nome dela. — Acreditaria se dissesse que sentirei sua falta?

Uma gargalhada escapou dela e, por um instante, Malena Villalobos desapareceu, dando lugar a sua verdadeira personalidade.

— É claro! Acredito que sentirá falta dos milhões que os meus serviços te rendem — sorriu, cínica. Então, tomou um pouco da sua bebida e, quando voltou a fitá-lo, era Malena novamente.

Armand acompanhou seu riso e transformação momentânea com prazer. Após tantos anos, ainda se admirava com a rapidez com a qual ela o fazia.

— Disso também! Principalmente, disso — admitiu.

— Ainda bem que estamos sendo sinceros. Me partiria o coração se começássemos a mentir um para o outro, agora.

Um casal se aproximou deles, interrompendo a conversa por alguns minutos, mas assim que partiram, Armand retornou ao assunto.

— Você me deixou muito mais rico, obrigado! Todos esses anos teriam sido perfeitos se você não tivesse cometido aquele… deslize.

A postura dele se tornou mais rígida, enquanto tocava o queixo quadrado onde uma cicatriz fina maculava o rosto atraente. Era uma recordação de que havia passado dos limites diante de alguém que não sabia o que era perdoar.

A mulher o encarou com firmeza, fazendo um grande esforço para não sorrir. Aquela cicatriz estava ali por sua causa. Ele extrapolou os limites quando se rendeu ao temperamento explosivo e tentou castigá-la por se envolver com uma cliente — uma mulher muito perigosa — que tomou as dores da amante.

Malena deslizou um dedo pela lapela do paletó dele e fingiu arrumar uma gravata que não estava torta.

— Não vamos voltar a tocar neste assunto. Foi há muito tempo. Deixemos que os mortos descansem em paz — ela deixou a tristeza se apossar da voz e Armand fez uma careta, recordando a mulher que maculou sua face ao protegê-la do seu ataque de fúria.

— Espero que aquela diaba loira esteja ardendo no inferno!

— E eu espero que ela já esteja no comando dele. Assim, quando você for para lá, terá o castigo merecido — derramou seu desprezo na frase, o que arrancou dele uma gargalhada alta e espalhafatosa.

— Você é mesmo única. Nunca conversamos a respeito, mas já pensou em ficar?

Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa. Aquele era seu último trabalho para Aquiles, depois dele seria dona dos seus próprios passos, livre para fazer o que quisesse. Sim, havia pensado em ficar, mas a vida era bem mais que adrenalina, dinheiro e faz de conta. Queria ser ela mesma outra vez, embora soubesse que a mulher que tinha se tornado, jamais voltaria a ter um brilho inocente no olhar.

— Claro que pensei, entretanto, quero mais que isso — apontou para o próprio rosto. — Cumpri nosso acordo e o faria de novo, se fosse preciso. Não tenha dúvidas. Entretanto, está na hora de Malena Villalobos e tantas outras se aposentarem.

Aquela resposta não o surpreendia. O coração e as vontades de Diana jamais seriam domados. Sabia que ela só permaneceu ao seu lado por tanto tempo, por ter um senso de honra fora do comum para os dias atuais. Era o tipo de mulher que cumpria suas promessas, mesmo que isso a levasse ao inferno.

— Foi o que combinamos.

— E assim será — ela afirmou, vendo-o juntar as sobrancelhas, como se tivesse dúvidas a respeito.

— Você é uma Caçadora. Suas presas não correm em desespero, nem se esvaem em sangue. Você caça relíquias, se diverte ao fazê-lo. Não conseguirá viver longe deste mundo por muito tempo.

— Nunca gostei desse apelido — retrucou, reprimindo a vontade de revirar os olhos.

— E, mesmo assim, fez uma tatuagem que quer dizer exatamente isso.

Ele a incentivou a andar, pousando a mão em suas costas, suavemente.

— É apenas uma tatuagem, Armand.

— Que significa exatamente o que você é. Vamos, querida, não negue que ama estar do lado sombrio. Afinal, é o lado mais divertido.

— Admito que é, mas não significa que desejo fazer isso para sempre.

— É uma pena. Ainda poderíamos fazer muito juntos — pareceu decepcionado, então sorriu novamente, admirando a expressão séria no rosto dela. — Anime-se, minha bela Caçadora, este é o seu último trabalho! Simples como roubar chupeta de criança. Venha, está na hora de apresentá-la “oficialmente” ao Dr. Aleksei.

***

Malena acordou com uma forte dor de cabeça.

Não se lembrava de ter bebido tanto na festa, mas certamente se lembraria daquela ressaca. Ouvia os sons do dia, o trânsito intenso do meio da manhã. Contudo, ao abrir os olhos deparou-se com a escuridão. Mal conseguia enxergar as formas dos móveis, todavia sabia que não estava em seu apartamento, graças ao perfume do ambiente. Um aroma amadeirado e masculino, o mesmo cheiro do Dr. Aleksei.

Como planejado, Armand os apresentou e partiu para outras rodas de conversa, deixando-a em companhia do rapaz e dos amigos, que logo se dispersaram também. Beberam e conversaram grande parte da noite e Aleksei a convidou para um último drinque em seu apartamento. Era a oportunidade que estava esperando e aceitou de pronto.

Fez questão de preparar a bebida, batizando-a com sonífero. Assim que o cientista se rendeu ao sono, iniciou o verdadeiro trabalho.

Seus contratantes desejavam acesso às pesquisas de Aleksei sobre um novo tipo de combustível, algo que custaria bilhões às companhias petrolíferas e renderia trilhões a quem desenvolvesse o novo produto. Poderiam obter os dados de uma maneira mais direta, ainda que também criminosa. No entanto, isso implicaria em chamar a atenção da polícia e da imprensa, impossibilitando que os contratantes patenteassem o novo produto.

Ela passou a mão na testa, a dor de cabeça aumentando quando tentou recordar o que aconteceu após invadir o computador de Aleksei e copiar sua pesquisa. Recordava-se, apenas, que sentiu uma forte tontura e caiu enquanto tentava chegar ao banheiro.

Havia algo morno e pegajoso em suas mãos e o cheiro férreo lhe chegou às narinas.

Seu coração disparou, já imaginando do que se tratava. Ficou de pé, a tontura tornando os movimentos incertos até conseguir se aprumar. Algo caiu no chão, fazendo um ruído metálico no mesmo instante em que o vento soprou, balançando as cortinas da janela entreaberta e permitindo que enxergasse o sangue em suas roupas e a faca no chão.

O som de vozes lhe chegou de outro cômodo, então vieram as batidas na porta.

— Polícia! Abra! — disse uma voz grave e masculina.

O sangue congelou nas veias dela, trazendo de volta a sobriedade. Precisava sair dali! No entanto, suas pernas se recusavam a sair do lugar. O suor escorria pela testa, a respiração estava pesada e os dedos formigavam.

As vozes e batidas se tornaram mais altas.

Malena, finalmente, conseguiu se mover. Deu um passo incerto e perdeu o equilíbrio. Para evitar a queda, agarrou-se à cortina, que não suportou o peso e despencou com ela. A luz do dia preencheu o apartamento, revelando uma cena de horror.

Havia móveis caídos e objetos quebrados por todo lado. No centro do cômodo, em meio a uma poça de sangue, com olhar vítreo e expressão apavorada, estava o corpo de Aleksei.

A cena era tão grotesca, que Malena não conseguiu evitar o vômito. Ela despejou todo o conteúdo do estômago no assoalho, sentindo os ouvidos zunirem ao passo que a porta era arrombada e os policiais invadiam o apartamento.

2. Vanessa

Brasil (dias atuais).

Gillian odiava pombos. Na verdade, ele odiava animais e a maioria das pessoas. Mas, no momento, seu ódio estava totalmente voltado para o pobre e inocente pombo gorgolejando e saltitando no capô do furgão.

Animal idiota! Ele acionou a palheta do para-brisa, mas o pássaro não se importou e continuou saltitando sobre o capô do veículo.

Miles o fitou, interrompendo a vigília que fazia do estabelecimento do outro lado da rua. Liberou o ar dos pulmões, deixando à vista uma expressão cansada. Era óbvio que ele estava tão zangado quanto Gillian, afinal, aquele trabalho estava se arrastando por meses sem nenhuma novidade.

— Cara, por favor, diz que é ela! Não aguento mais esse trabalho! — Juan pediu, jogado no banco traseiro.

Gillian ajustou o retrovisor para observá-lo enfiar um punhado de batatas chips na boca. Aquele sujeito o irritava muito mais que os pombos. Porém, era deveras competente em seu trabalho, então relevava sua grosseria e falta de educação como, também, o péssimo hábito de transformar o carro em um lixão.

— Não tenho certeza — respondeu Miles. — A altura e tipo físico batem, mas não posso afirmar que seja ela. Ainda mais, dessa distância. No entanto, existe uma chance. É a segunda vez que ela aborda a professorinha.

Recolocou os binóculos e algum tempo se passou até que voltasse a se pronunciar. Somente o som das batatas, sendo esmagadas pela mandíbula de Juan, se fazia ouvir dentro do carro. Nervoso, Gillian ligou o rádio e recebeu um olhar agradecido de Miles. Assim como ele, o companheiro detestava a presença do rapaz no banco de trás, mas nada podiam fazer a esse respeito, já que o três foram escolhidos a dedo para realizar aquela tarefa.

— Estamos vigiando essa mulher há dias e ela é tão chata quanto uma foca tomando banho de sol — Juan reclamou, revirando os olhos no retrovisor. — Por que não a pegamos logo? Damos uma prensa e ela vai cantar como a Whitney Houston.

— Tenho mesmo que responder a essa pergunta estúpida? — Miles se virou para encará-lo.

Juan sorriu com os dentes cobertos por uma massa de batatas semi-mastigadas, divertindo-se em deixar o companheiro nervoso. Compreensivo, Gillian tocou o ombro de Miles, pressionando com um pouco de força. O homem exalou, impaciente, e retornou para a vigília.

— Você já trabalhou com ela? — Gillian questionou Juan.

O rapaz deu de ombros, despreocupado.

— Não.

— Então, não volte a fazer perguntas idiotas.

— O que eu disse de tão errado assim? — insistiu.

Miles se voltou para ele, outra vez. Uma veia saltitava, perigosamente, em sua testa. Dias enfiados num furgão, com aquele estúpido, estavam fazendo com que perdesse o equilíbrio das emoções. Juan era um parvo e Miles pegou-se a imaginar a razão de ainda não ter sido assassinado pelos companheiros de serviço.

Seria tão fácil! Só precisariam dizer que morreu durante um combate.

A ideia o agradou profundamente e fez uma anotação mental de retornar a ela num futuro próximo.

— O que Gillian quer dizer é que a Caçadora é muito esperta e não é à toa que é considerada a melhor que existe nesse ramo — respondeu com um suspiro agastado.

— Por que você acha que Aquiles a quer morta? — rosnou Gillian, tamborilando os dedos no volante.

— Porque ela fugiu da cadeia, invadiu a mansão dele, roubou todos os dados de suas transações e clientes e ainda tacou fogo em tudo? — Juan respondeu com uma simplicidade quase brutal, ainda exibindo um sorriso sujo de batatas. — Como é aquele ditado mesmo? Ladrão que rouba ladrão…

Ele coçou o queixo, esforçando-se para recordar o resto da frase. Por fim, desistiu. Jogou o saco de batatas vazio no piso do veículo e se inclinou para a frente, esticando os braços sobre o banco que os outros dois ocupavam.

— Qual é, caras! Vocês têm que admitir que é irônico o chefinho ser roubado por alguém que ele treinou para roubar os outros — riu de lado. — Mesmo assim, acho que foi apenas sorte. Ela pegou o chefe de surpresa, não é para tanto. Não entendo essa atmosfera de constrangimento que se forma sempre que tocamos no assunto.

Gillian trincou os dentes, contendo-se para não puxá-lo sobre o banco e apagar seu riso debochado com socos. Às vezes, sonhava com isso. Ao seu lado, Miles balançou a cabeça, respirando fundo.

— Já faz um ano, seu imbecil! Um ano! A nossa organização tem poderes quase ilimitados. Somos mais equipados que algumas agências de espionagem e, mesmo assim, não conseguimos encontrá-la! Isso parece sorte para você?

— Tudo o que temos é uma pista vaga de que ela está aqui, no Brasil — Miles completou. — E quando digo vaga, é realmente vaga. Ela sabe, como ninguém, encobrir seus rastros.

— Aquela filha da mãe tem buscado apoio entre os inimigos do chefe. E ele tem um monte! — Gillian resmungou.

— Trabalhamos juntos algumas vezes e, em todas, a Caçadora era uma mulher diferente. Não vamos encontrá-la dando sopa na esquina. Isso vai nos tomar muito tempo de observação. Então, cale essa boca e faça seu trabalho ou, pelo menos, não nos atrapalhe.

O rapaz ergueu as mãos, dando-se por vencido.

— Tudo bem, tudo bem! Só me expliquem uma coisinha.

Gillian revirou os olhos, massageando a arma na cintura. Bufou:

— Fala!

— O que uma professora do jardim de infância tem a ver com uma ladra internacional?

***

— Tia Vanessa!

A professora baixou o olhar para o rostinho molhado pelas lágrimas e se ajoelhou para ficar na mesma altura da menina. Arqueou as sobrancelhas ao notar a marca que os dedinhos sujos de achocolatado deixaram no tecido branco da sua blusa.

— Eles não querem me deixar jogar!

Com um sorriso, Vanessa acariciou a face infantil, enxugando as lágrimas dela com as costas das mãos. Se esforçou para manter-se séria diante do problema da menina, mas não resistiu ao ver sua amiga, Beatriz, que se aproximou com duas xícaras nas mãos. Ela tinha ouvido parte da conversa e agora lhe dirigia um olhar engraçado, como se estivesse terrivelmente atormentada pelo fato dos meninos não deixarem uma menina jogar futebol com eles.

— Vem! — Vanessa ficou de pé e passou a mão sobre a cabeça da pequena. Alguns cachos se desfizeram ao seu toque. Vanessa a conduziu até o grupo de meninos que jogava bola no meio do pátio. Riu dos rostinhos emburrados dos pequenos “homenzinhos” quando falou que as meninas também poderiam jogar futebol tão bem quanto os meninos. 

— Ah, tia, ela é um bebê chorão. As meninas só sabem chorar! — um garotinho de rosto sardento reclamou, fazendo bico.

Vanessa reprimiu a vontade de gargalhar com a cena. Em vez disso, sorriu complacente.

— Não seja tão precipitado. Dê uma chance à sua coleguinha.

O bico dele aumentou enquanto as bochechas ficavam vermelhas.

— O que é precip… preci…?!

Ela explicou com calma, fazendo um cafuné no garoto. O pequeno balançou a cabeça, indicando que havia compreendido e ela retornou ao motivo da conversa.

— Como pode ter tanta certeza de que a sua coleguinha não sabe jogar, se não dá uma chance para ela?

O menino fez uma careta e deixou os ombros caírem, vencido.

— Ah, bom! — chutou uma pedrinha imaginária e correu de volta para o pátio com a menina em seu encalço.

Pela primeira vez àquele dia, Vanessa deu um sorriso de verdade e retornou para junto de Beatriz. A amiga lhe entregou uma das xícaras que segurava, então a convidou para sentar em um banco próximo.

— Não sei como você consegue — disse ela. — Resolve os problemas dessas crianças com duas palavras, enquanto eu mal consigo manter minha autoridade sem fazer um deles chorar.

— Não é uma questão de autoridade — afirmou, delicada.

— Nem vem! Já conheço todos os seus argumentos e concordo com a maioria. Mas ainda me espanto com a facilidade que você tem para falar com eles. Toda essa paciência… — Beatriz balançou a cabeça. — Eles me assustam!

— São só crianças, Bia! — repreendeu.

— Monstrinhos, você quer dizer. Não me iludo com esses rostinhos de anjo.

— Céus! Você tem problemas! — riu baixinho.

Beatriz fez uma careta, então soprou dentro da xícara e tomou um gole. Ela fazia o mesmo discurso todas as manhãs. E, realmente, não tinha o menor jeito para o jardim de infância. Gostava mesmo era de trabalhar com adolescentes, mas naquela escola exercia apenas o cargo de secretária da diretoria.

Vanessa demorou-se um pouco a observar o sorrisinho maroto nos lábios dela. Por fim, deu de ombros, tomou um gole do chá e desviou o olhar para uma nuvem no céu, cujo formato lembrava uma girafa. A inocência infantil era o que a atraía naquela profissão. Amava os pequenos, a doçura com que enxergavam o mundo, ainda intocados pela maldade e ambição. Era fácil conversar com eles e paciência nunca faltava.

Beatriz era sua amiga mais antiga e entendia bem o que ia em seu coração, mas divertia-se em amolá-la com aqueles comentários.

— Nem parece que algo aconteceu — Beatriz afastou o silêncio em que caíram, olhando para a garotinha com quem Vanessa conversava minutos antes. A menina corria atrás de uma bola com um sorriso de orelha a orelha. — Acho que vamos ter uma campeã daqui a alguns anos. Você poderá contar, cheia de orgulho, como a incentivou no esporte.

— Não seja exagerada.

— Quando ela estiver erguendo a taça das campeãs da Copa do Mundo, quero ver você me chamar de exagerada de novo — fez um bico, então caiu na risada.

Ficaram em silêncio, outra vez. No céu, o vento desfez a nuvem girafa e ela começou a ganhar uma nova forma. Sem perceber, Vanessa acompanhou a transformação, deixando a mente deslizar por lembranças de uma época mais feliz, quando passava horas deitada na grama, olhando para o céu ao lado de alguém que partiu cedo demais. Naquela época, era mais fácil sorrir, assim como, também era mais fácil chorar.

— Está me ouvindo? — Beatriz a chamou, pousando a mão no seu braço.

Desconcertada, Vanessa trouxe o olhar de volta para a amiga e mostrou um sorriso sem graça.

— Desculpe, me distraí.

— Você tem andado muito aérea esses dias…

Ela fez um biquinho, que escondeu por trás da xícara. O braço de Beatriz descansou sobre seu ombro antes dela pousar os lábios na sua cabeça.

— Eu sei… o aniversário da morte dela está chegando — Beatriz a soltou.

Vanessa deu um sorriso trêmulo. Às vezes, era inquietante ter alguém que a conhecia tão bem, noutras, era confortável.

— Eu tento não ficar triste quando a data se aproxima, mas é impossível esquecer dela ou me livrar dessa dor. Onze anos se passaram e ainda sinto como se tudo tivesse acontecido ontem.

Beatriz exalou forte, afagando os cabelos dela. Ao mesmo tempo que sentia pena de Vanessa por ainda não ter superado a perda do seu grande amor, também sentia um pouco de inveja desse sentimento. Afinal, nunca experimentou algo tão forte em seus relacionamentos.

Onze anos atrás, Vanessa disse a si mesma que a dor de perder Diana iria passar, que iria se erguer e que chegaria o dia em que a noiva morta se tornaria apenas a lembrança de um rosto dentre tantos outros. Contudo, o tempo passou e a memória dela permanecia vívida, cada vez mais profunda em sua alma.

Desde que ela morreu, poucos foram os momentos em que se sentiu realmente viva. Poucas foram as pessoas que conseguiram ultrapassar a muralha que ergueu por medo de sofrer outra perda como aquela.

No entanto, as coisas estavam mudando. Aos poucos, recuperava partes da Vanessa do passado e o motivo tinha nome e sobrenome: Cristina Assis.

— Vamos deixar esse assunto de lado, sim? O que você dizia?

A xícara de Beatriz quase escapou da mão dela, quando fez um gesto de descaso.

— Perguntei se gostaria de ir ao cinema hoje. Minha irmã e o namorado me convidaram, mas não estou a fim de servir de vela para os dois. Podemos tomar um chope depois.

Não era uma má ideia. Fazia um bom tempo que Vanessa não saía com a amiga, porém, declinou do convite.

— Fica para outro dia, Bia. Vou sair com Cristina — sorriu, recordando a namorada, que planejava o jantar daquela noite há uma semana.

Vanessa suspeitava que a razão de tanto planejamento era a caixinha de joias que Cristina carregava na bolsa. Um acaso a fez encontrá-la no dia anterior. Não era uma aliança, Vanessa tinha prometido que nunca mais voltaria a usar um anel do tipo. No início do relacionamento, deixou Cristina ciente disso em uma conversa despreocupada, entretanto, não revelou os motivos.

— Ela quer comemorar seis meses de namoro — explicou para Beatriz.

— Isso é fofo!

— Ela é um doce. Nem consigo acreditar que estamos juntas há tanto tempo.

— Nem eu! — a amiga declarou, satisfeita por ver que a tristeza de momentos antes desapareceu do semblante dela. — Depois daquela peste da Mariana, você não engatou namoro com ninguém. Só relacionamentos passageiros.

A mão de Vanessa balançou no ar, como se ela estivesse espantando um pensamento ruim. Beatriz repetiu o gesto, dizendo:

— Não está mais aqui quem falou! Só de pronunciar o nome daquele “ser”, já sinto as energias negativas se aproximando.

Vanessa concordou e Beatriz mexeu os dedos, dando a entender que varria as tais energias para longe. 

Aquele não foi um relacionamento saudável. Era verdade que, apesar dos problemas, Vanessa insistiu em continuar ao lado de Mariana. Iludia-se com a paixão que a moça lhe inspirava. E foi assim por um tempo.

Contudo, não passou de uma ilusão causada por um coração triste e solitário, que ansiava um pouco de calor e vida. Mariana era possessiva, tinha um ciúme doentio e, por vezes, foi protagonista de escândalos que culminaram no afastamento de alguns de seus amigos.

Três anos haviam se passado desde que o casamento de dois anos acabou. Vanessa ainda sentia arrepios ao ouvir o nome dela, que não aceitou bem o fim do relacionamento e passou a perseguí-la.

Quando menos esperava, dava de cara com Mariana na rua. Sem falar nas inúmeras noites em que ela passou vigiando sua casa. A ex-esposa foi a causadora de muitos transtornos, incluindo a sua demissão de um dos melhores empregos que já teve.

Mariana lhe roubou o sossego e o sono. Vanessa tornou-se uma pilha de nervos à espera de que ela saltasse à sua frente a qualquer instante. Foi um período perturbador e chegou a considerar a possibilidade de se mudar para outra cidade, contudo, Beatriz a convenceu do contrário. Fugir não resolveria o problema, pelo contrário, só traria uma falsa sensação de segurança e a tornaria prisioneira de seus próprios medos.

Vanessa sorveu um grande gole de chá enquanto Beatriz se distraiu ao digitar uma mensagem no celular. O nome de Mariana continuou ressoando em sua mente e, involuntariamente, recordou o último encontro com ela.

Voltava da casa de Beatriz, tarde da noite. Estava um pouco alta, após algumas taças de vinho em excesso, e isso lhe devolveu um pouco da coragem da qual não era dona desde que a ex passou a infernizar sua vida.

A amiga queria que passasse a noite na casa dela, todavia, Vanessa se negou a ficar. Então, Beatriz decidiu chamar um táxi, mas ela recusou. Disse que queria dar uma caminhada à luz do luar.

Como fazia semanas que não via Mariana, imaginou que ela, finalmente, tinha se dado por vencida. Um terrível engano.

Um quarteirão antes da sua casa, notou alguém a seguindo. Preocupada, acelerou o passo e respirou aliviada quando alcançou o portão da residência. Procurava a chave que o abriria quando a ex-namorada a jogou contra a parede. Mariana era mais alta e mais forte fisicamente, além disso, o fato de Vanessa não estar totalmente sóbria lhe forneceu vantagem.

Mariana não aparentava o descontrole costumeiro, pelo contrário, falava friamente e agia com premeditação. Tentando escapar de suas garras, Vanessa a estapeou. Em resposta, Mariana encostou um canivete na garganta dela. Naquele dia, Vanessa viu a morte prometida nos olhos da ex, que abafou seu pedido de socorro com a mão e a pressionou contra o muro, onde a luz do poste, do outro lado da rua, não tocava.

— Se não quer ser minha em vida, será na morte! — afirmou a ex, e aquela foi sua última ameaça.

— Isso não é nada romântico — disse alguém.

Das sombras, a pessoa que falou se materializou. Pelo menos, era assim que Vanessa se recordava, mesmo sabendo que foi a impressão de uma bêbada. Não foi possível ver o rosto, mas as formas de uma mulher eram claras. Ela puxou Mariana para o meio da rua, atirou-a no chão com força e o canivete deslizou com ruído até a sarjeta.

Com a respiração entrecortada pelo medo e algumas lágrimas, que não ousaram ir além de seus olhos, Vanessa assistiu a ex-namorada se erguer e partir para cima da estranha. Mariana orgulhava-se de ser uma praticante de jiu-jitsu, ágil e habilidosa, mas, naquela noite, ela foi golpeada repetidas vezes. Por fim, foi atirada ao chão como um saco de areia, onde se dobrou sobre o próprio corpo, cuspindo sangue e vomitando até se dar por vencida.

— Você está bem? — a salvadora perguntou, ainda envolta pelas sombras, já que estava de costas para a luz.

Alguns segundos se passaram até Vanessa compreender que era consigo que a mulher falava, fitando-a do meio da rua com Mariana quase inconsciente aos seus pés.

— Sim — respondeu quando ela repetiu a pergunta.

Vanessa deslizou a mão pelo pescoço, onde um filete de sangue traçava caminho até seu colo. Foi tomada por uma vertigem repentina. A mulher com quem dividiu um lar, fez planos, sonhou e dizia amá-la, tentou matá-la.

De repente, seu peso era demais para as pernas sustentarem. Ela escorregou pelo muro até o chão, sentindo o sangue morno macular a blusa branca que vestia. A estranha se aproximou devagar, retirou um lenço do bolso e lhe entregou.

— Obrigada — Vanessa balbuciou, os olhos fixos em Mariana, que havia ficado imóvel. — Ela… ela está bem?

— Devia se preocupar consigo, não com ela.

Vanessa deu um sorriso trêmulo.

— Acho que sou um pouco idiota.

A mulher sorriu. Ao menos, Vanessa teve essa impressão.

— Uma boa mulher, você quer dizer. Não se preocupe, ela ficará bem e você também.

— Quem é você?

— Uma amiga — disse, retornando para junto de Mariana, que ajudou a ficar de pé.

A moça deu alguns passos trôpegos e ameaçou voltar para o chão, mas a mulher enlaçou sua cintura e a guiou pela calçada, rumo ao fim da rua.

— Espere! — Vanessa pediu, ficando de pé e indo até elas. — Para onde a está levando?

Sua salvadora parou e se voltou para olhá-la. Estavam ainda mais longe do poste, completamente envoltas pela escuridão. Uma moto passou em alta velocidade e, por um instante, Vanessa vislumbrou um rosto alvo e bonito, carregado de mistério, que lhe enviou um meio sorriso antes de se voltar para a escuridão. 

— Cuide-se, Vanessa. Ela não vai mais incomodar.

— Como sabe o meu nome?

Ela não respondeu. Em vez disso, guiou a sua ex até o carro que estava estacionado alguns metros adiante. Uma Mariana desorientada entrou nele com a sua heroína e, instantes depois, os pneus cantaram quando o veículo partiu em alta velocidade, deixando para trás uma Vanessa confusa, mas aliviada.

A estranha falou a verdade e Mariana não voltou a incomodá-la. Desde aquela noite, quando o acaso as colocava na mesma calçada ou local, Mariana cortava caminho ou saía pela primeira porta que visse, sem lhe dirigir um único olhar.

Vanessa nunca contou para alguém o que aconteceu, contudo, volta e meia a lembrança daquele encontro retornava aos seus pensamentos. Era estranho, mas gostava de pensar que havia um anjo zelando por ela. Ao mesmo tempo que a ideia a agradava, também a deixava triste, pois imaginava que o anjo era Diana, o grande amor de sua vida, cuja morte levou cedo demais.

***

— Cara, por que as mulheres mais gatas são sempre lésbicas? — Juan perguntou.

Miles passou a mão no rosto, torcendo para que Gillian chegasse logo para rendê-lo. Se passasse mais uma hora com aquele imbecil, iria matá-lo.

Estavam parados diante da casa de Vanessa. Dessa vez, num carro popular, que de tão pequeno mal lhes permitia esticar as pernas e isso aumentava a irritação do capanga.

— Está certo que a professorinha é uma chata, mas até que é gostosa. E aquela loira que ela namora? Que mulherão! Queria ser uma mosquinha para ver o que elas estão fazendo agora — Juan sorriu malicioso.

Era a gota d’água. Miles não suportava mais, encostou a cabeça no volante, imaginando qual teria sido sua falta para que Aquiles o punisse com uma companhia tão desagradável. Abriu a boca para insultar aquele traste, no entanto, a chegada de Gillian o impediu.

O terceiro integrante da equipe deu três batidinhas na janela do carona e curvou-se para fitar os outros dois, quando Juan a abriu.

— Que cara é essa? — o rapaz perguntou.

Gillian balançou o celular diante de seus olhos. Nos lábios ressequidos e finos, ele tinha um sorriso quase satisfeito.

— O chefe mandou pegar a professora — respondeu.

***

Cristina sorriu com um jeitinho cafajeste. Vanessa a puxou para si, devorando seus lábios com um beijo sugado. Estava encantada com ela e começava a achar que, finalmente, seu coração iria sossegar após tanta solidão.

Quando Cristina disse que iriam jantar e comemorar os seis meses de namoro com uma noite especial, não imaginava encontrá-la em sua casa com velas espalhadas por todos os lados e pétalas de rosas no chão.

Não era a coisa mais romântica que já tinham feito para ela, contudo, era refrescante e receber o carinho da namorada. Cristina, às vezes, se mostrava um pouco atrapalhada com o andar da relação e isso costumava se refletir em um pouco de insegurança quando tentava realizar gestos românticos. Vanessa achava isso gracioso, principalmente, quando ela confessou que esses receios vinham do fato de que nunca quis tanto alguém como a queria.

Cristina se esforçou para fazer daquela noite um momento perfeito, para que Vanessa soubesse o quanto era amada. 

— Onde pensa que vai? — Vanessa questionou ao vê-la se afastar de seus braços.

A namorada ficou de pé, deixando que admirasse o corpo curvilíneo e de pele alva, completamente desnudo. Observou os músculos firmes e o abdome sarado dela com um sorriso malicioso. Cristina fazia jus a profissão que tinha: personal trainer.

Vanessa, por outro lado, detestava academias e estava sempre brigando com a balança por questões de saúde, não estéticas. E mesmo não estando dentro dos padrões almejados pelos alunos da sua namorada, não se sentia inferior ou inadequada para Cristina, que sempre a olhava com devoção. Exatamente como naquele momento.

Ela deslizou um dedo pelo ventre de Vanessa, demorando-se a traçar caminhos imaginários pelos fios negros que adornavam seu sexo. A professora estremeceu e um arrepio gostoso percorreu o corpo.

— Preciso de um copo d’água para recuperar minhas forças e dar início ao segundo ato — Cristina respondeu com um sorriso malicioso, já se afastando do sofá onde acabaram de se amar.

Vanessa riu e a puxou de volta, suave, mas firme.

— Também tenho sede, linda. Mas é sede de você! Quero me afogar no seu corpo.

Grudou os lábios aos dela, num beijo quase sufocante de tão delicioso. As línguas se enroscaram, num bailar provocante e exigente. Carícias uniram-se ao beijo. Cristina gemeu entre os lábios de Vanessa, quando as mãos dela escorregaram por seu corpo, deixando rastros de calor e poros arrepiados.

Seus corpos pareciam dançar numa mistura de movimentos cadenciados em busca do prazer. Completamente entregue ao desejo, Cristina conduziu a mão da namorada até o meio de suas pernas com um gemido manhoso preso na garganta. Vanessa sorriu no meio do beijo que trocavam. O sexo úmido se abriu para recebê-la e seus dedos escorregaram com facilidade para dentro da mulher.

— Você é tão gostosa…

A resposta de Cristina foi uma mistura de suspiro e gemido, que anunciou seu destempero. Ela rebolou em seus dedos, movimentando-se cada vez mais rápido em busca do clímax que eles prometiam.

Ela a enlouquecia de desejo e Vanessa amava se aventurar em suas curvas, em seus beijos e gemidos. Era tudo tão natural e verdadeiro com ela, suave e, às vezes, selvagem. Seus olhares estavam fixos um no outro quando Cristina disse que a amava, completamente entregue ao ápice que se aproximava.

Vanessa nem teve tempo de processar o completo significado dessa frase, pois uma voz masculina cortou o som dos suspiros e gemidos:

— Cara, isso é melhor que filme pornô!

As duas mulheres se afastaram de um pulo, protegendo a nudez com as almofadas. Havia dois homens armados, parados na entrada do corredor que levava ao quarto. Um terceiro homem surgiu na porta que levava à cozinha.

Aquele que falou, sorriu malicioso, devorando o casal com seus olhos negros como piche.

— Agora esse trabalho está ficando interessante! — Juan afirmou em meio a uma gargalhada.

3. Diana

Max soprou a fumaça do cigarro, observando o vento carregá-la. Era o seu último. Havia fumado uma carteira inteira, sentado naquele banco de praça. Estava faminto e louco para ir ao banheiro, mas principalmente, estava muito ansioso e preocupado.

Ele não conseguia dormir desde que Vanessa sumiu, três dias antes, e vinha se empenhando para encontrar qualquer pista que pudesse levar ao seu paradeiro. Havia conseguido algumas, entretanto, sabia que tinha chegado ao seu limite. Agora, precisava de ajuda, contudo, considerava a polícia daquela cidade dona de uma incompetência sublime. Então, procurou a única pessoa que, tinha certeza, não mediria esforços para trazer Vanessa para casa.

Quanto tempo faz que não nos vemos? Ele se perguntou em silêncio.

— Onze anos! — respondeu em voz alta e sorriu para o vento que bagunçava seus cabelos longos e rebeldes. Coçou o queixo, coberto por fios negros de um cavanhaque ralo, recordando aquele último e triste encontro.

“Eu te odeio”, foram as últimas palavras que disse para ela. Ainda se lembrava da sensação que tomou seu corpo ao pronunciá-las. Assim que findou a frase, soube que era mentira.

Era apenas um garoto, jovem demais para entender as escolhas dela. Estava de coração partido por perder alguém que admirava e em quem se espelhava. No fundo, queria segui-la, queria fazer parte das aventuras que a aguardavam, mas ela o atirou de volta à realidade. Não havia espaço para ele em sua nova vida, nem para Vanessa.

— Ei, moleque!

Max se empertigou, saltou do banco e atirou o baseado no chão. Já que a praça estava deserta e seus cigarros tinham acabado, não viu problema em acender um. Tossiu uma vez, sentindo o rosto afogueado diante do olhar de reprovação da mulher à sua frente.

— É isso que anda fazendo com os seus neurônios? — a mulher perguntou com um sotaque suave, oriundo do sul do país.

O rapaz reparou que ela não devia ter mais que quarenta anos. Os cabelos eram negros, com algumas mechas loiras. O rosto era bonito, mas comum. O queixo era um pouco quadrado e o nariz levemente arrebitado, porém, os olhos eram impressionantemente verdes e o mediram de alto a baixo, minuciosamente.

Durante aquele exame, ele não conseguiu deixar de notar que havia algo de familiar naquelas feições, mas ignorou a impressão. Com seu jeito de moleque rebelde, encheu os pulmões de ar e disse:

— Não enche! Vai tomar conta da sua vida! — apanhou o baseado, mas antes de voltar a colocá-lo nos lábios, a mulher o jogou de volta ao banco.

— Você era mais educado e fofo quando criança — ela tomou o baseado e esmagou com a sola do sapato. — E era mais inteligente, também.

Os olhos de Max se arregalaram, percorrendo a face alva em busca do reconhecimento, que não veio.

— Di-Diana?! — perguntou, descrente.

Em resposta, recebeu um peteleco na testa e um sorriso de aprovação. O silêncio que se seguiu era cortado apenas pelo vento que anunciava a aproximação de nuvens chuvosas. Se observaram por alguns instantes até que Max fugiu daquele olhar estranho e afastou-se para que ela sentasse ao seu lado.

— Já faz um tempo que ninguém me chama assim — ela cruzou as pernas. — Que permaneça desse modo, por enquanto.

O sotaque havia desaparecido completamente e dado lugar à voz macia e de tom alegre da qual Max recordava. Ele alisou os cabelos, nervoso e incapaz de aceitar aquela mudança radical.

— C-como devo te chamar, então?

Ela deu de ombros.

— Do que quiser, não faz diferença — afastou o olhar para a rua, então sorriu, retornando para ele. — Ana… Era assim que você costumava me chamar, não é mesmo? Me chame de Ana, então.

Ele concordou com um inclinar de cabeça. Limpou a garganta e brincou com um dos botões da camisa, inconscientemente.

— Não te reconheci, você está tão diferente do que me lembro.

Diana riu alto e de forma espalhafatosa. Pegou a mão dele entre as suas e apertou com firmeza. Por um instante, Max viu a mulher que conheceu na infância, aquela que o levava ao cinema, ria das suas histórias e o ajudou a escapar do bullying.

— Ah, não me olhe assim, pirralho! Não há motivo para se assustar com a minha aparência, isso é apenas maquiagem — apontou para si e soltou a mão dele.

— Sério? — o rapaz ergueu a mão para lhe tocar a face, mas Diana o afastou com carinho.

— É possível ser qualquer um, Max. Basta ter as ferramentas necessárias e o talento.

Max se encolheu no banco. De repente, achou algo muito interessante para analisar em suas unhas.

— Por onde você andou? O que fez durante esses anos?

Ele se prometeu que não faria aquelas perguntas, contudo não conseguiu evitar. A curiosidade era mais forte que a sua vontade e, talvez… talvez não voltasse a vê-la de novo.

Diana desviou o olhar para a rua. De repente, sentia-se muito cansada. Quando sentou naquele banco, a saudade a inundou com a fúria caudalosa de uma enchente. Pura, simples e cruel. Após mais de uma década longe e depois do que aconteceu em Madri enquanto usava a pele e alcunha de Malena Villalobos, ansiava por um pouco daquilo que deixou para trás quando seguiu Aquiles. Contudo, a presença do rapaz ao seu lado só servia para lembrá-la do que perdeu e nunca iria recuperar.

— Por que você me chamou? — desprezou a pergunta dele.

De que adiantaria contar a verdade? No fundo, queria que Max continuasse guardando um pouco da admiração que lhe dedicava na infância, que ele ainda a visse como a Diana de antigamente, embora não tivesse restado muito dela em si.

— Por que não me responde? — ele devolveu, sentindo a raiva e o abandono misturarem-se em seu peito.

Quando a conheceu, era apenas um menino solitário que sofria bullying pelo excesso de peso e a inteligência acima da média. Ele morava em frente à casa da namorada dela e o convívio foi inevitável, pois vivia enfiado na casa de Vanessa. Seus pais costumavam deixá-lo aos cuidados dela, desde que se mudaram para o bairro.

Max não fazia ideia do porquê, mas Diana gostava dele. Assim como Vanessa, ela prestava atenção nele. Nunca ria de suas trapalhadas, nem reclamava quando começava a falar sobre ciência — um assunto que entediava a maioria das pessoas e rendia provocações e apelidos maldosos na escola.

Ele amava as duas como se fossem suas irmãs mais velhas e, quando Diana “morreu”, sentiu-se tão devastado quanto Vanessa. Não conseguiu aceitar aquela perda, nem a explicação da polícia de que ela tinha se suicidado, atirando o carro contra a mureta de proteção de uma ponte.

— Há testemunhas — disseram os policiais.

No entanto, seu coração rebelde se recusou a acreditar. Talvez por ser tão jovem e inexperiente, não conseguia entender o desespero que levava um ser humano a se autodestruir. Não conseguia enxergar a tristeza que as pessoas diziam ter visto no olhar dela nos dias que antecederam sua “morte”.

Para ele, Diana era a pessoa mais alegre que conhecia. Era claro, naquela época, que estava triste com a morte do pai, mas ele tinha certeza de que nunca tiraria a própria vida. Então, decidiu provar que a polícia tinha se enganado e usou de todos os recursos que um garoto gênio poderia dispor.

— Já faz muito tempo — ela disse, atraindo seu olhar. — Você está bonitão! Aposto que tem um monte de namoradas ou namorados.

— Por favor, não mude de assunto. Não sou mais criança. Pelo menos, desta vez, me conte a verdade! — olhou-a fundo nos olhos, tão diferentes dos que lembrava. Eles tinham a cor errada e uma frieza que lhe doeu na alma.

Naquele momento, se sentia o mesmo garoto bobo e sonhador, que invadiu o sistema de vigilância de trânsito e baixou o vídeo do acidente que vitimou sua amiga. Tudo o que desejava, naquela época, era provar que essa tragédia foi apenas isso, um acidente, e assim levar um pouco de paz a sua outra amiga, Vanessa.

Assistiu aquele vídeo uma centena de vezes. Em todas, não havia dúvidas de que o carro acelerou em direção a mureta de proteção da ponte.

Mesmo assim, Max se recusou a aceitar que Diana escolheu a morte. Ele baixou todos os vídeos do percurso que a amiga fez naquele dia. Tinha de haver alguma prova de que o carro apresentou problemas durante o trajeto, mas não havia nada.

Por fim, depois de muitas lágrimas, acabou chegando a mesma conclusão que a polícia. No entanto, algo ainda o incomodava. O corpo nunca foi encontrado e enterraram um caixão vazio; Max não suportava essa ideia.

No fundo, a esperança de que ela tivesse conseguido sobreviver e talvez estivesse ferida e perdida, necessitando de ajuda, era maior que as vozes das pessoas que o cercavam e insistiam em afirmar que Diana partiu para sempre.

Então, baixou todos os vídeos possíveis do entorno do rio. Após dias assistindo, finalmente, a encontrou. Diana saía de uma lancha no pequeno píer de uma propriedade particular, cinco quilômetros rio abaixo. As imagens vinham de uma câmera de trânsito da rodovia. Estavam um pouco desfocadas, mas era ela, tinha certeza.

Ela estava acompanhada por um homem vestido com roupas de mergulho e carregando um cilindro. Entrou em um carro luxuoso, que já aguardava no píer, e se foi.

Max não conseguiu conter sua felicidade. Diana estava viva! Mas, se era assim, por que permitiu que acreditassem no contrário?

Ele precisava saber de tudo antes de contar para Vanessa, então seguiu as pistas. Primeiro, a placa do carro o levou a uma empresa de aluguel de veículos. Invadiu o sistema, acessou o GPS do veículo e descobriu seus movimentos no dia em que pegou Diana.

Aos poucos, conectou o queba-cabeças de informações e elas o levaram até um quarto de hotel em São Paulo, onde encontrou a amiga após fugir de casa e usar todas as suas economias para chegar até lá.

— Você ainda é uma criança, Max. Um dia vai entender.

Diana disse naquele dia. Estava assustada por sua farsa ser desmascarada tão facilmente pelo garoto. Temia o que poderia acontecer com ele se descobrissem o que sabia.

Eu nunca vou entender!

Ela baixou a cabeça, dando-se por vencida ou, talvez, cansada demais para discutir com um garoto de treze anos.

Você não pode contar para ninguém. Entendeu?

Mas, Vanessa precisa saber — ele chorou.

Principalmente ela! Max, eu me meti em encrenca. Fiz um acordo com pessoas muito ruins e para isso tive de fingir minha morte.

Por quê?

Ela se aproximou, apertando os ombros dele com força.

Porque Vanessa iria querer vir comigo e eles a usariam contra mim. A vida dela estaria sempre em risco. Entende? Não posso permitir que a machuquem.

Mas… ela está sofrendo…

Eu também estou! ela berrou, as lágrimas chegando aos olhos.Mas, o sofrimento dela irá passar. Ela vai me esquecer e seguir adiante. O meu está só começando. Jamais esquecerei o que deixei para trás. Você é capaz de entender isso?

Como ela disse, Max era apenas um garoto. Havia muito que não era capaz de entender. Diana lhe deu dinheiro para voltar para casa e o acompanhou até a rodoviária. O fez prometer que não contaria nada e ele cumpriu a promessa. Fez mais que isso, também.

Apesar da raiva e decepção que sentia, a manteve informada sobre a ex-namorada e, tinha quase certeza, que ela havia dado um jeito em Mariana. Pois, logo após lhe enviar um e-mail, contando sobre a perseguição e ameaças que ela fazia a Vanessa, a moça desapareceu da vida dela de vez.

 — Coisas. Algumas boas, outras ruins. Só… coisas! — Diana respondeu, voltando a seriedade. — Talvez, um dia, possamos sentar aqui outra vez e poderei contar tudo o que deseja saber. Por onde andei, as coisas que fiz, as pessoas que fui. Porém, agora, assim como naquele dia, não posso. Para nossa segurança, meu tempo aqui é curto. Então, fale de uma vez a razão de ter me contatado. Você não me envia um e-mail há quase dois anos.

Max engoliu em seco, contrariado. Contudo, obedeceu. Afinal, estava mesmo se desviando do objetivo daquele encontro.

— Ela sumiu — revelou, quase sentindo uma satisfação nefasta ao observar a transformação dela.

A frieza nos olhos desapareceu, dando lugar a um brilho assustado. Os punhos cerraram, os lábios se comprimiram.

— O quê? — ela perguntou com voz falha, o sangue parecia ter congelado nas veias.

— Vanessa sumiu — Max repetiu, deixando os ombros se curvarem ainda mais.

Diana engoliu em seco, buscando um pouco do costumeiro sangue-frio. Tarefa imensamente difícil, visto que tudo que dizia respeito a ex-namorada provocava nela os sentimentos mais intensos.

— Quando aconteceu? — quis saber, deixando o susto dar espaço a uma expressão de ódio na face estranha.

— Aconteceu há três dias. Era madrugada, eu estava voltando de uma festa e vi o portão aberto. Achei estranho, mas resolvi fechar. Foi quando notei que a porta estava escancarada. Entrei na casa e não encontrei ninguém. Havia algumas coisas reviradas, restos de um jantar… O carro da namorada dela estava na garagem, mas nem sinal delas.

— Namorada… — ela sussurrou, como o início de uma frase que não chegou a ser concluída, pois Max interpretou a palavra como uma pergunta. Ele ficou vermelho, de repente.

— É, sabe, aquela pessoa que te faz feliz, sai com você, faz carinho, beija, e não parte seu coração fingindo a própria morte.

Por um momento, o barulho do vento e dos carros em ruas laterais foi tudo o que ouviram. Ele continuou encarando Diana com ar de desafio até se dar conta de que tinha alcançado seu objetivo e a magoado.

Diana endireitou-se, recostando-se no banco. Max observou a dor moldar os olhos dela. Afinal, ela disse a verdade naquele quarto de hotel: jamais esqueceria Vanessa.

— Elas estão juntas há alguns meses. Cristina é legal e a faz feliz — contou.

Esperou alguma palavra ou gesto sobre o relacionamento de Vanessa, contudo, Diana voltou a ser a estranha. O fitava tão friamente quanto possível, à espera de mais detalhes sobre o assunto que realmente importava.

— Eu chamei a polícia, mas eles não têm ideia do que aconteceu — prosseguiu após um suspiro longo.

Ela limpou a garganta e ficou de pé. Enfiou as mãos nos bolsos da calça e alguns pingos de chuva tocaram sua face. Logo, o céu desabaria sobre suas cabeças, como os trovões ao longe anunciavam.

— Eu vou cuidar disso — prometeu. — Vanessa voltará para casa em breve.

— Isso tem a ver com você, não tem? — estava convencido de que se tratava disso.

Diana percorreu os traços daquele rosto rechonchudo. Era um homem, mas ainda parecia um menino e, outra vez, ignorou sua pergunta.

— Obrigada por me chamar, Max. Cuide-se! — começou a se afastar, mas ele pegou sua mão, impedindo-a. Voltou a encará-lo.

— Só… traga ela de volta — pediu, depositando um pen drive na mão dela. — Isso é tudo que consegui. Invadi as câmeras de segurança, como da outra vez.

— Por que não mostrou isso para a polícia? — encarou o objeto como se fosse algo venenoso.

— Para os imbecis que caíram naquela sua ceninha fajuta de suicídio no estilo Thelma e Louise? Não mesmo! Eu era quase uma criança e te encontrei, enquanto os paspalhos estavam jogando dominó na delegacia. — Jogou os cabelos para trás das orelhas e então baixou o olhar. — Se eu tivesse sido mais atento… Os caras a estavam seguindo há dias.

Diana suspirou longamente, enfiando o pen drive no bolso.

— Você é jovem demais para usar uma referência do cinema tão antiga, sabia? — mostrou um pequeno sorriso, para o qual Max revirou os olhos. — Não se culpe por isso, garoto. Ninguém que leva uma vida normal e tranquila, espera ser seguido e sequestrado.

Novo suspiro, uma olhada rápida para um ponto qualquer além da praça e, finalmente, admitiu:

— Sim, é por minha causa que a pegaram.

— O que você fez, Diana?

Ela se aproximou devagar. Sorriu por ter de ficar na ponta dos pés para beijar a face dele e se afastou dizendo:

— Sobrevivi.



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