Não é preciso coragem para amar. É preciso coragem para se deixar amar.”

Clarice Lispector


Ana Carolina está sentada no hospital, olhando um prontuário, mas a mente está longe. Ela fecha os olhos. Respira fundo e murmura:

— Diana Camargo.

A tensão dos últimos dias em sua casa, o repentino sumiço da mulher que vem roubando seu sono também não está ajudando.

— Dra? — A enfermeira a olha sem entender, chama mais forte: DRA?

Ana Carolina olha pra ela sem entender.

— Desculpe Dra, há um chamado na sala 03, o prontuário está aqui.

— Obrigada, Leide. Vou dar uma olhada, você pode avisar a Dra Alice que estarei em minha sala e assim que ela puder vá até lá?

— Claro Dra.

Ela saiu para o atendimento e ao chegar em sua sala Alice já a esperava deitada no sofá.

— Ei, estranha, cheguei e você não estava. Resolvi ficar aqui descansando um pouco.

Ana Carolina fechou a porta da sala e encostou-se à parede por um instante, como quem precisa se recompor antes de enfrentar o que sente.

— Você tá péssima — disse Alice, sentando-se no sofá e esticando as pernas. — E não é só cansaço.

Ana Carolina não respondeu de imediato. Caminhou até a mesa, pegou uma garrafa de água, bebeu devagar. Se sentou na poltrona, como se o corpo estivesse mais pesado do que o jaleco que usava. Alice a observava em silêncio, com aquele olhar que não cobrava, só esperava.

— Só pra avisar que tô aqui…

Ana Carolina se recostou na poltrona, os olhos fixos no teto como se buscasse respostas nas rachaduras da pintura.

— Carol… O que está acontecendo? Não é de hoje que estou sentindo e vendo você estranha.

— Lá em casa tá um campo minado, Alice.

— Minha amiga, sinto muito em te informar, mas, isso não é novidade. A tua família, deve ser responsável por uma boa parte da tua terapia, né?

— Nossa, Alice! Bom saber, o que você pensa, hein?

— Também te amo Carol! Mas, assim… Quer que eu minta?

— Se isso é amor… o resto nem sei o que é…

— Carol…. Carolzinha do meu coração, o que tem acontecido pra você estar assim?

— Desde aquela briga entre o vô e o Gabriel, ninguém mais respira em paz lá em casa.

Alice se ajeitou, cruzando as pernas.

— Pra que reality show, quem precisa das Kardashian, quando você tem a família Medeiros de Alcântara.

Elas se olharam e começaram a gargalhar.

— Só você mesmo Alice.

—Agora, sério Carol, pode falar. E a Elisa? Ela foi mesmo embora?

Ana Carolina assentiu, com um suspiro pesado.

— Foi. Pegou as malas, disse que precisava de paz. Que não dava mais pra viver com o ciúmes do Gabriel. E ela tá grávida, Alice. Grávida. E mesmo assim, ele não conseguiu segurar a raiva, o controle, a paranoia.

Alice balançou a cabeça, triste.

— E sua avó?

— Dona Estelita tá em pedaços. Ela passa o dia com o terço na mão, chorando baixinho. Diz que perdeu um filho, que as filhas moram longe, e que agora tá vendo o último filho se destruir. Ela olha pra mim com aquele olhar de quem espera que eu conserte tudo. Mas eu não sei como.

Alice se aproximou, tocando o braço da amiga.

— Você não tem que consertar nada, Carol. Você já carrega demais.

Ana Carolina continuou, como se as palavras precisassem sair antes que sufocassem.

— E o vô… ele tenta. Mas o jeito dele é duro. Ele e Gabriel vivem em atrito. Pequenas brigas todos os dias. Um olha torto, o outro responde atravessado. É como se ninguém mais soubesse conversar. Só sabem se ferir.

Alice olhou para ela com carinho.

— E você? Onde você fica nisso tudo?

Ana Carolina olhou para Alice, os olhos marejados.

— Eu fico no meio.

Alice se aproximou, sentando-se no braço da poltrona: — Quer falar sobre isso?

Ana Carolina olhou para o chão, depois para a janela. O céu estava nublado, como se refletisse seu peito.

— Você é forte Carol, sempre foi! Desde criança, mas não precisa ser sozinha. E não precisa esperar que os outros te validem pra existir. Você existe. Você sente. Você ama. E isso é lindo.

Ana Carolina fechou os olhos, deixando uma lágrima escorrer.

— Isso não é apenas por causa das brigas na tua casa, eu te conheço Carol. O que mais está acontecendo?

— Diana Camargo. — disse, como se o nome tivesse gosto. Alice se ajeitou, curiosa.

— A mulher que te beijou? Eu pensei que você fosse lésbica? Vai voltar pro armário?

Ana Carolina riu, um riso curto e sem humor.

— A mulher que me beijou, me desmontou e sumiu.

— Carol…

— Hum…

Alice se levantou, sentou-se ao lado dela.

— Quer falar sobre isso?

— Você lembra da primeira vez que eu te contei? — Ana murmurou, os olhos fixos na parede.

Alice sorriu com ternura.

— Ensino médio. Julia Vasconcelos, sua paixão e saída do armário. Você estava tremendo. Com medo do que eu fosse pensar.

Alice apertou a mão da amiga. — Carol… fala.

— Dona Marina.

— Ei… Nada, absolutamente nada que aquela mulher te fale com relação a sua sexualidade deve ser levada em consideração. Na verdade, eu acho que nada do que ela fale deva ser levado em consideração.

— Ela nunca me aceitou.

Alice ficou esperando ela continuar.

— Eu achei que minha mãe fosse me entender. Na verdade, esperava que meus avós, não entendessem. Viviam aqui em Nova Esperança, interior, uma outra geração. E minha mãe… sempre foi tão… elegante, tão firme. Achei que ela ia dizer “tudo bem, minha filha, eu te amo do mesmo jeito”. Mas ela só disse: “Não diga isso em voz alta. Isso não é você. Isso é confusão.”

Alice se calou. Sabia que aquela parte doía mais.

— Ela disse que era confusão. E eu acreditei. Virei a melhor aluna, a médica exemplar, a neta perfeita. Tudo, menos eu.

— E você passou anos tentando ser perfeita. A melhor aluna. A melhor médica. A mais controlada. Como se pudesse compensar o que ela achava que você era.

— Ela parou de me abraçar, Alice. Parou de me chamar de “minha menina”. Começou a me olhar como se eu tivesse falhado. Como se eu tivesse escolhido decepcioná-la.

Ana Carolina riu, um riso curto e triste.

Alice se aproximou, segurou o rosto dela com delicadeza. — Ela te disse que você era confusão. Mas você sempre foi clareza pra mim.

Ana Carolina fechou os olhos, deixando uma lágrima escorrer.

Alice apertou a mão da amiga.

— Você é tudo o que ela não teve coragem de ser. Ou melhor, o que muitas pessoas não têm coragem. Caralho Carol, aquela mulher que você ainda insiste em chamar de mãe, não tem metade da força que você tem. Olha pra você, uma médica respeitada, foi estudar fora do Brasil, transformou esse hospital em referência. É o seu sonho, é a sua vida. E isso deveria bastar.

Ana Carolina respirou fundo, como quem se prepara para abrir uma ferida que nunca cicatrizou.

— Você lembra… quando minha mãe me pegou beijando a Júlia?

Alice assentiu, o rosto sério agora.

— Como esquecer? Foi um dos piores dias da sua vida. E um dos que mais me fez te admirar.

Ana Carolina olhou para o chão, os olhos marejados.

— A gente estava no meu quarto. Era um beijo leve, um carinho. Mas minha mãe entrou sem bater. E congelou. Ficou olhando como se tivesse visto um crime. E depois… veio o surto.

Alice se aproximou, sentando-se no chão ao lado da poltrona.

— Ela gritou tanto que os vizinhos ouviram. Chamou você de tudo. Disse que ia te internar, que ia te tirar da escola. Eu lembro de você me ligando, sem conseguir respirar.

Ana Carolina assentiu, a voz embargada.

— Ela me trancou no quarto. Disse que eu tinha destruído a imagem da família. Que eu era uma vergonha. E eu… eu acreditei. Achei que tinha feito algo imperdoável.

Alice segurou a mão dela com firmeza.

— Você não fez nada errado, Carol. Você amou. E foi punida por isso. Mas você sobreviveu. E isso te fez mais forte.

Ana Carolina sorriu, um sorriso triste.

— Você que ficou. Ligou pro meu avô.

— Nossa. Como eu adorei o show que teu avô deu! Num instante o surto da megera acabou. Bastou ele dizer que iria cortar o dinheiro e levar você e seu irmão embora.

— As prioridades de D. Marina.

Silêncio. Mas não o silêncio da dor. Era o silêncio da escuta. Da presença.

— E agora tem Diana.

Alice se ajeitou, curiosa.

— A beijoqueira sumida

Ana Carolina sorriu.

— Às vezes eu queria saber de onde você tira esses nomes…

— Detalhes… Continua Ana Carolina.

— Ela me desmontou, Alice. Me olhou como se me enxergasse. Como se visse tudo o que eu escondi. E isso me dá medo. Porque se ela me vê, ela pode me tocar. E se me tocar, pode me quebrar.

Alice sorriu com ternura.

— Ou pode te curar.

Ana Carolina fechou os olhos.

— Ela é um turbilhão. Quando está perto, tudo parece mais intenso. Mais vivo. Mas também mais perigoso. Ela carrega dor, raiva, desejo, justiça. E eu… eu não sei se estou pronta pra entrar nesse furacão.

Alice ficou em silêncio por um instante, observando a amiga com ternura. Ana Carolina fechou os olhos, como se o turbilhão de Diana ainda estivesse ali.

Alice esperou um instante, depois soltou: — Nossa Senhora! Jesus! Isso foi intenso. Sapatão é intensa. É por isso que casa em meses… beija e já tem esse turbilhão… Por isso sou hétero.

Ana Carolina gargalhou com a amiga.

— Hétero, com momentos bem calientes com professoras… médicas… enfermeiras.

— Nessa vida, temos que experimentar. Saber o que queremos. E a gente só sabe se experimentar.

— Experimento? Alice, por favor.

— Ei… ei… calma, modo de falar. Eu gosto de aproveitar as oportunidades, se me chama a atenção, é gostoso, porque não vou provar… Minha filha, quero curtir com homem, mulher… Quando e se me apaixonar, me encantar e porventura casar, vou saber que aproveitei e bem a vida…

Alice se levantou, tocou o rosto da amiga com delicadeza.

— Carol, presta atenção, talvez você não precise entrar nesse turbilhão Diana. Talvez e apenas talvez, só precise deixar que ele te leve. Porque às vezes, o que parece caos é só o começo de uma nova ordem.

Ana Carolina olhou para ela, emocionada.

— Eu não sei o que sinto. Mas sei que é forte. Que é real. Que é diferente de tudo.

Alice sorriu.

— Então sente. Sem medo. Sem culpa. Sem pedir desculpas. Você merece! Não tem o que esconder, seus avós sabem, aqui no hospital também! É sua vida Carol, olha pra você… qualquer mulher daria tudo pra ter uma chance contigo.

Ana Carolina respirou fundo. Pela primeira vez em muito tempo, sentia que talvez pudesse ser inteira. E talvez, só talvez, pudesse deixar Diana ver todas as partes — até as que doem.

Ana Carolina olhou para Alice com um misto de gratidão e medo.

— Eu não sei se estou pronta.

Alice sorriu, firme.

— Talvez você nunca esteja. Mas isso não significa que não deve ir.

Ana Carolina respirou fundo. O nome de Diana ainda pulsava em sua mente.

E pela primeira vez, ela não queria fugir.

Pela primeira vez, ela queria ser vista — inteira.



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